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Sunday, 15 February 2015

Michael Hudson: O FMI anexou a Ucrânia?

por Real News Network, TRNN, 15/2/2015
Traduzido pelo Coletivo de tradutores Vila Vudu 

Michael Hudson é pesquisador emérito e professor de Economia da Universidade do Missouri, em Kansas City. Seu dois livros mais recentes são The Bubble and Beyond e Finance Capitalism and its Discontents. O próximo livro tem o título de Killing the Host: How Financial Parasites and Debt Bondage Destroy the Global Economy.

SHARMINI PERIES, Produtora Executiva, TRNN: Bem-vindos ao Michael Hudson Report na The Real News Network. Sou Sharmini Peries, falando com vocês de Baltimore.
Foi acertado um cessar-fogo no leste da Ucrânia, depois de uma maratona que durou uma noite inteira, 17 horas de negociações entre o presidente Vladimir Putin da Rússia e o presidente da Ucrânia Petro Poroshenko. Acompanharam a discussão dois líderes europeus, como uma espécie de ‘público qualificado’. (...) Para falar sobre isso, está conosco hoje o professor Michael Hudson. Obrigada, Michael, por nos receber.

MICHAEL HUDSON: Obrigado pelo convite.

PERIES: Em recente entrevista publicada em The National Interest, você disse que a maior parte da imprensa-empresa cobre a Rússia como se fosse a maior ameaça contra a Ucrânia. Mas que a história sugere que o FMI pode ser ameaça muito mais terrível. O que você quis dizer com isso?

HUDSON: Em primeiro lugar, os termos sob os quais o FMI faz empréstimos exigem muito arrocho (...)


[ATENÇÃO: No original, austerity (port. “austeridade”, mas em campo semântico completamente diferente e com a carga moral positiva que lhe dão os liberais, reforçada pela incansável repetição na imprensa-empresa de propaganda contra governos democráticos; “arrocho” (port.) significa exatamente a mesma coisa que “austeridade”, mas sem acrescentar os traços semânticos traços moralmente positivos que os liberais acrescentam em “austeridade”; e com os traços negativos, de coisa não desejável, que lhe dão as classes trabalhadoras, por exemplo nas expressões, “programas de arrocho [de salários e de direitos dos que trabalham] (NTs)]

(...) e o fim de todos os subsídios públicos. A população ucraniana já está economicamente devastada. As condições que o programa do FMI impôs para fazer empréstimos à Ucrânia é que o país pague as próprias dívidas. Mas o país não conseguirá pagar. Assim sendo, só há um meio para que consiga pagar, e é o mesmo meio que o FMI disse à Grécia e a outros países que usassem: que liquidem todo e qualquer bem que o país ainda possua; o que quer que ainda haja sob controle do poder público; que crie sociedades em que se casem os milionários ucranianos oligarcas e investidores norte-americanos ou europeus, de modo que eles possam criar monopólios na Ucrânia e dedicar-se a extrair lucros da miséria do país.
Esse é o plano “de saque e voleio” mortal do FMI: concedem o empréstimo – a ser usado para pagar os credores, de modo que, agora, o país passa a dever para eles, para o FMI, entidade com a qual nenhuma dívida pode ser extinta ou perdoada. Esse empréstimo é feito sob os termos da Ficção Reinante: que a Ucrânia pode(ria) pagar a dívida externa com um excedente no orçamento doméstico, que apareceria tão logo se cortassem gastos públicos e se aprofundasse ainda mais a depressão.
Essa ideia de que dívidas externas possam ser pagas com arrocho de salários e serviços públicos foi contestada por Keynes nos anos 1920s, na discussão da reparação alemã. (Devoto um capítulo a essa controvérsia em meu Trade, Development and Foreign Debt.)
No século 21, já não há desculpas para cometer tal erro – a menos que seja erro ‘planejado’, deliberado, plano feito para fracassar, quando então o FMI pode dizer que ‘aconteceu’, culpa de ninguém e surpresa para todos, que o seu tal “programa de estabilização” desestabilizou, em vez de estabilizar, mais uma economia.
O preço por seguir essa economia-droga é pago sempre pela vítima, não pelo distribuidor da substância viciante. É item importante na estratégia do FMI de “culpe a vítima”.
Então, vem a segunda parte do golpe “saque e voleio” do FMI. É quando dizem “Ora... Vocês não podem pagar o que emprestamos?! Sentimos muito que nossas previsões para o caso de vocês tenham sido tão erradas. Mas... vocês têm de achar um modo de nos pagar. Vão ter de vender tudo o que ainda esteja em mãos do estado endividado...
O FMI erra, no caso da Ucrânia, ano após ano, praticamente tanto quanto sempre errou no caso da Irlanda e da Grécia. As suas ‘receitas’ são as mesmas que devastaram as economias do 3º Mundo a partir dos anos 1970s. [vide NTs]
Assim, o problema agora é o que a Ucrânia terá de vender em liquidação para pagar a dívida que tem com o FMI e o Banco Central Europeu – e dívida que não para de crescer, porque também não para a guerra [inventada pelo ‘ocidente’] que já devastou a economia ucraniana.
Um dos valiosos bens ucranianos que muito interessam aos investidores estrangeiros é a preciosa terra ucraniana agricultável. A empresa Monsanto vem comprando – de fato, arrendando, porque há leis na Ucrânia que ainda impedem a venda de terra agricultável a estrangeiros. De fato, é lei muito semelhante à que o Financial Times noticiou que a Austrália quer ver aprovada, para impedir que empresas chinesas e norte-americanas comprem terra no país.
O FMI também insiste que países devedores desmontem toda e qualquer legislação ou regulação que haja contra investimentos estrangeiros, e todas e quaisquer regulações de proteção ao meio ambiente e de proteção ao interesse dos consumidores.
Significa que está sendo assada, para ser enfiada goela abaixo da Ucrânia, mais uma política neoliberal que, com certeza absoluta, só agravará ainda mais a situação.
Nesse sentido, se pode dizer que finança é guerra. Finança é a nova modalidade de guerra, em que nações beligerantes usam a finança e liquidações forçadas, num novo tipo de campo de batalha. Nada disso jamais ajudará a Ucrânia. Só levará a nova crise, adiante, e muito muito depressa.

PERIES: Michael, examinemos com mais cuidado toda essa crise (...).

HUDSON: Quando Kiev foi à guerra contra o Leste da (então) Ucrânia, combateu contra, basicamente, a região de minas de carvão e área de exportações. 38% das exportações da Ucrânia viajam diretamente para a Rússia. Grande parte dessa capacidade de exportação foi bombardeada e já não existe. Além disso, as empresas de eletricidade, que fornecem energia elétrica para as minas também foram bombardeadas. Significa que a Ucrânia já não produz carvão, sequer, para abastecer o próprio país.
O mais espantoso é que há apenas poucas semanas, dia 28/1/2015, Christine Lagarde, chefe do FMI, disse que o FMI não concede empréstimos a países em guerra, que seria financiar um lado ou o outro dos combatentes... Ora! A Ucrânia está envolvida numa guerra civil. A grande questão é, portanto, quando, afinal, o FMI começará a liberar o empréstimo que está sendo discutido [O ‘cessar-fogo’ firmado ontem pode ter algo a ver com ‘não haver guerra’ formal na Ucrânia... (NTs)]
O FMI tampouco ‘pode’ emprestar para países insolventes. Assim sendo, como, afinal, a Ucrânia seria candidata viável a empréstimos se, (1) está em guerra; e (2) é insolvente?
A única solução é a Ucrânia pagar o que deve a alguns investidores. O que significa muitos investidores de hedge funds de especulação, muito contrariados. O [jornal]
Financial Times de hoje publicou matéria em que mostra que só um investidor norte-americano, Michael Hasenstab, é proprietário de $7 bilhões da dívida da Ucrânia e contava especular com ela, além do Templeton Global Bond Fund.
Como a Ucrânia lidará com os especuladores? E então, por fim, como o FMI lidará com o fato de que o fundo soberano da Rússia emprestou 3 bilhões de euros à Ucrânia sob condições duríssimas mediante o acordo de Londres, e dívida que não pode ser extinta por acordo? Será que o FMI insistirá em que a Rússia sofra o mesmo tratamento que os fundos hedge de especuladores? Todas essas questões se acumularão num tipo de conflito que exigirá muito mais esforço, até, que o que vimos no campo de batalha militar, em dias recentes.

PERIES: Assim sendo, como a Ucrânia imagina que consiga sair dessa crise?

HUDSON: O mais provável é que a Ucrânia viva num universo paralelo, num mundo imaginário no qual conseguiria sair da crise com o ocidente dando $50 bilhões ao país e dizendo, olhem bem, aqui está todo o dinheiro de que precisam, gastem como bem entenderem. É delírio. É até onde vai a imaginação, a fantasia. O país está vivendo num mundo fantasiado. Mas há, bem real, nessa fantasia, que há algumas semanas
George Soros escreveu na New York Review of Books e conclamou o Congresso e “o Ocidente” a dar $50 bilhões à Ucrânia e considerar como adiantamento  para os militares ou para usar contra a Rússia. OK, Kiev respondeu imediatamente, sim, só gastaremos em armamento de defesa. Defenderemos a Ucrânia daqui até a Sibéria e varreremos do percurso todos os russos que surjam.
Não demorou e hoje o Financial Times em editorial já disse que, sim, deem, sim,  à Ucrânia os $50 bilhões que George Soros pediu. Temos de garantir que tenham dinheiro suficiente para combater, pelos EUA, a nova Guerra Fria contra a Rússia.
Mas os europeus continentais não estão gostando... “Calma lá! No fim, por esse plano de vocês, não haverá mais ucranianos para lutarem. A guerra respingará para a Polônia e outros pontos, porque, se o dinheiro dado à Ucrânia for, de fato, para a finalidade que buscam o governo Obama-Soros-Hillary – fazer guerra contra a Rússia –, não há dúvidas de que a Rússia dirá: “OK, se estamos sendo atacados por soldados estrangeiros, somos obrigados a bombardear não só os soldados que chegam, mas também os aeroportos de onde partem, e estações de trem... Nossa defesa será estendida sobre território europeu.’”
Parece que já começam a surgir notícias confiáveis de que Putin disse à Europa: vocês têm dois caminhos. Caminho 1: Europa, Alemanha e Rússia podem constituir área de alta prosperidade. As matérias primas da Rússia, com a tecnologia europeia, e seremos uma das áreas mais prósperas do mundo. Ou, caminho 2: Façam guerra contra a Rússia e a Rússia pode acabar com vocês. É só escolher, e não há ‘terceira via’.

PERIES: Michael, muito obrigado por nos receber.

HUDSON: Sempre bom falar com vocês, Sharmini.

NTS
O Brasil, no governo FHC, e com Malan no ministério da Fazenda, chegou a dever 400% do que poderia retirar por empréstimo do FMI:
“[Em 2015] comemoram-se 13 anos da última vez que o Brasil tomou empréstimos do Fundo Monetário Internacional. Na gestão do Ministro Pedro Malan, na Fazenda, no governo Fernando Henrique, a dupla anunciou oficialmente em 8 de agosto de 2002, que havia acabado de assinar um pacote de US$ 30 bilhões de empréstimo junto ao Fundo. Não fora a primeira vez naquela administração. Em 11 de novembro de 1998, também com FHC-Malan, o Brasil fechou um acordo para poder sacar do Fundo o bagatela de US$ 20 bilhões nos três subsequentes à assinatura.
Outros US$ 32 bilhões ficaram disponíveis para serem sacados no ano de 1999. Marcado para ser encerrado em novembro de 2001, o acordo com o FMI foi prorrogado pelo governo às vésperas de seu encerramento. Assim, o País tomou emprestado mais US$ 15 bilhões, pagando juros de 4,5% ao ano por 25% desse dinheiro, e fortes 7,5% pelo restante. Àquela altura, o Brasil já lançava mão de uma soma equivalente a 400% de sua cota no próprio FMI.
Ainda assim, todos os empréstimos do Fundo se mostraram, para a equipe econômica, insuficientes para garantir estabilidade econômica ao País. Em junho de 2002, por exemplo, houve um saque de US$ 10 bilhões junto ao Fundo, além de ser estabelecida uma redução de garantias de reservas a serem apresentadas pelo Brasil. O mínimo de US$ 20 bilhões em caixa para tomar empréstimos foi reduzido para US$ 15 para facilitar novas operações. A dependência dos recursos do Fundo estava explícita.
Em agosto de 2002, uma última linha de crédito foi tomada, de US$ 30 bilhões, completando a terceira ida do País ao FMI nos dois anos de gestão de FHC na Presidência e de Pedro Malan na Fazenda. A obtenção desse dinheiro foi apresentada como uma necessidade em razão da volatilidade ampliada pela disputa eleitoral daquele ano, entre Lula, do PT, e José Serra, do PSDB. Logo após a assinatura, o Brasil precisou fazer novo saque bilionário.
No governo Lula, logo em abril, o Brasil pagou US$ 4,2 bilhões ao FMI, adiantando a parcela de quitação dos recursos tomados no ano anterior. Depois desse movimento, o País não precisou recorrer novamente ao Fundo. Atualmente, Brasil já emprestou R$ 10 bilhões ao fundo e exibe reservas internacionais acima de US$ 379 bilhões” [8/8/2012, Pragmatismo Político]
 

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