28/04/2026

Sim, a China é um capitalismo de Estado — e daí?

Ao contrário do capitalismo ocidental, em que o capital controla o Estado, o modelo chinês se baseia em um Estado que controla o capital.

Antônio Dasmortes, 28-04-2026

Professor visitante na Universidade Normal do Sul da China e autor do livro A Odisseia Chinesa, de Mao Zedong a Xi Jinping, Bruno Guigue, ex-subprefeito francês demitido pela ministra do Interior em 2008 por um artigo denunciando o lobby pró-Israel, publicou recentemente uma defesa argumentada da China na qual se recusa a qualificá-la como “capitalismo de Estado”, preferindo vê-la como um socialismo em transição [NON, LA CHINE N’EST PAS UN “CAPITALISME D’ ETAT”: NÃO, A CHINA NÃO É UM “CAPITALISMO DE ESTADO”]. Sua demonstração é útil porque lembra que a expressão é frequentemente usada como um insulto: à direita, para denunciar o estatismo chinês; à esquerda, para denunciar seu capitalismo.

Mas o debate rapidamente se torna estéril quando se reduz a decidir qual palavra deve prevalecer. O capital existe na China — ninguém contesta isso. Ele se acumula, enriquece, explora, produz desigualdades. No Ocidente, o Estado intervém massivamente, mas o capital mantém a hegemonia. Na China, o capital intervém massivamente, mas o Estado mantém o comando. É essa inversão que muda tudo.

Nossa posição é diferente. Não buscamos vencer a batalha das definições. No fundo, pouco importa se falamos de socialismo com características chinesas, capitalismo de Estado ou sistema híbrido. O que importa é o que esse sistema faz às pessoas, concretamente, na escala de 1,4 bilhão de vidas. E, se olharmos os resultados em vez dos rótulos, uma conclusão se impõe: sim, a China é um capitalismo de Estado, no sentido de que o Estado conduz a acumulação do capital — e é exatamente isso que lhe permitiu oferecer à sua população a mais extraordinária melhoria das condições de vida da história recente.

A China não é um capitalismo liberal. Também não é um socialismo livre de mercado, de classes sociais, de exploração e de fortunas privadas. É algo mais desconfortável para categorias prontas: um capitalismo de Estado sob comando político comunista. O capital existe, se acumula, enriquece e, às vezes, explora duramente. Mas não é soberano. Não define sozinho a direção do país. Não tem a palavra final. É aí que reside a diferença essencial.

Há vinte anos, multiplicam-se artigos, relatórios e editoriais que usam a expressão como condenação automática. “Capitalismo de Estado”. As palavras soam fortes e, no imaginário ocidental, bastam para desqualificar um modelo inteiro. Subsídios, empresas públicas, planejamento, controle de capitais: dizem-nos que a China não joga pelas regras. Que venceria trapaceando aquilo que outros tentam conquistar na arena “virtuosa” do livre mercado.

Admitamos. Levemos a acusação a sério. Sim, a China contemporânea é um capitalismo de Estado. Mas é preciso definir o que isso significa — e, sobretudo, o que isso produz.

Se chamarmos de capitalismo de Estado um sistema em que o poder público possui os bancos, controla a alocação de crédito, detém grandes redes de infraestrutura, orienta o investimento industrial por planos quinquenais e mantém sob seu controle os setores estratégicos — então a China é um. Está claro. Mas, uma vez dito isso, surge a questão lógica: o que esse sistema produziu para o povo chinês, e em que escala histórica?

Em quarenta anos, oitocentos milhões de pessoas saíram da pobreza. Não da pobreza relativa, medida como porcentagem da renda média nos países ricos, mas da miséria absoluta, onde comer duas vezes ao dia não é garantido. O próprio Banco Mundial reconhece nisso a maior redução de pobreza da história humana. Se o capitalismo de Estado chinês é um crime, seria interessante saber qual outro sistema pode reivindicar tal resultado.

Dir-se-á que crescimento não é tudo. Então vejamos a vida cotidiana. Noventa por cento das famílias chinesas são proprietárias de suas casas. Nas grandes metrópoles ocidentais, esse número é um sonho distante para gerações condenadas ao aluguel permanente. Água encanada, eletricidade, acesso à saúde e à educação são hoje a norma até nas regiões mais remotas. O país se encheu de trens de alta velocidade, hospitais, universidades. O smog de Pequim diminuiu porque o Estado decidiu investir, em poucos anos, mais em energias renováveis do que todos os outros países juntos. Uma ditadura do capital de Estado, talvez; um desastre humano, claramente não.

O mais surpreendente no debate ocidental é que poucos querem olhar esse balanço de frente. Discute-se interminavelmente a natureza do regime, sua distância dos padrões liberais, a ausência de concorrência perfeita. Mas, concretamente, o que deveria ter sido feito? Entregar o desenvolvimento de um país de 1,4 bilhão de habitantes às mãos invisíveis do mercado global? Deixar investidores estrangeiros definirem prioridades industriais? Desmantelar os bancos públicos para que as taxas de juros se ajustem às exigências dos credores internacionais?

Todos os países que passaram do subdesenvolvimento ao status de potência o fizeram por formas, mais ou menos duras, de capitalismo de Estado. A Alemanha do fim do século XIX, a França dos Trinta Gloriosos, o Japão da era Meiji, a Coreia do Sul de Park Chung-hee, Singapura, Taiwan: todos protegeram suas indústrias emergentes, planearam a alocação de recursos, financiaram suas empresas líderes por meio de contratos públicos e controlaram seu sistema bancário. A diferença chinesa é de escala e continuidade — não de natureza. O que o Ocidente critica em Pequim, ele próprio já fez quando precisou. Simplesmente, ele esqueceu — ou finge ter esquecido.

Também é preciso observar o que o Ocidente faz, não apenas o que diz. A Lei de Redução da Inflação dos EUA distribui centenas de bilhões em subsídios às indústrias verdes instaladas no território. A Lei Chips financia com recursos públicos a relocalização da produção de semicondutores. A União Europeia, há muito guardiã do dogma da concorrência, flexibiliza suas regras para formar campeões continentais. Na França, o Estado continua sendo o acionista de referência da EDF, da SNCF e de parte do setor de defesa. O capitalismo de Estado está em toda parte. A questão é saber se ele melhora a vida das pessoas ou se beneficia apenas uma minoria.

E é aí que o caso chinês incomoda mais. No capitalismo de Estado ao estilo ocidental, as grandes iniciativas públicas são, na maioria das vezes, realizadas em benefício final dos acionistas privados: socializa-se os riscos, privatiza-se os lucros. Na China, a lógica é diferente. Os bancos públicos financiam pontes, linhas ferroviárias e hospitais que nunca gerarão lucro no curto prazo, mas cuja utilidade social é imensa. A propriedade final do solo permanece nas mãos do Estado, o que permitiu conter a especulação imobiliária que se observa em outros lugares. Os grandes empresários que cometem fraudes ou ameaçam a estabilidade do sistema vão para a prisão. Esse é um indicador bastante confiável de quem manda.

É aqui que Guigue aborda um ponto essencial, mas tira uma conclusão excessivamente defensiva. Ele explica que a China não é capitalista porque a oligarquia capitalista não detém o poder no país. Mas essa observação não basta para fazer o capitalismo desaparecer. Ela permite, ao contrário, precisar sua forma.

A China não é um capitalismo onde o Estado serve ao capital. É um capitalismo em que o Estado comanda o capital, o utiliza, o limita, o pune quando ele se torna perigoso e o orienta para objetivos que o mercado, sozinho, jamais perseguiria.

Essa distinção permite escapar da falsa escolha entre duas caricaturas: de um lado, a China como um paraíso socialista já realizado; de outro, a China como um simples capitalismo autoritário pintado de vermelho. A China é um país onde o capitalismo existe, mas onde a classe capitalista não governa. Um país onde o mercado não constitui o princípio supremo de organização social. Um país onde bilionários podem prosperar, mas sabem que não são o Estado. Eles enriquecem dentro de um marco definido pelo poder político, e não definindo esse marco em benefício próprio. A prova disso é que, quando um deles ameaça a estabilidade ou a legitimidade do sistema, o Estado o chama à ordem sem contemplações.

Resta a objeção moral, que muitas vezes vem da esquerda radical: esse capitalismo de Estado continua sendo capitalismo, com desigualdades, exploração, trabalhadores precários e bilionários. É verdade. A China conta com fortunas colossais e trabalhadores migrantes que vivem em condições duras. O socialismo com características chinesas não aboliu as classes sociais. Ele integrou o mercado mundial, utilizou a disciplina do trabalho industrial, aceitou a acumulação privada, permitiu a formação de uma burguesia nacional e produziu contradições sociais massivas.

Mas a objeção, para ser aceitável, precisa propor uma alternativa praticável. Que modelo de desenvolvimento não capitalista, na escala de 1,4 bilhão de seres humanos, em uma economia mundial estruturada por cadeias de valor transnacionais, provou sua viabilidade? O Gosplan soviético industrializou um país imenso, mas não resistiu às suas próprias rigidezes, nem à competição econômica e tecnológica de longo prazo. As experiências autogestionárias envolveram comunidades restritas. Os socialismos proclamados do Sul quase sempre foram estrangulados pela dependência externa, pelas sanções, pela fragilidade industrial ou pela guerra. Nenhuma dessas vias arrancou a pobreza de massa com a velocidade e a constância do “capitalismo de Estado” chinês.

Pode-se achar isso triste. Pode-se sonhar com um mundo em que a democracia direta dos produtores tivesse conduzido a China da fome à prosperidade sem nunca passar pela exploração. Mas, por enquanto, a realidade deu seu veredito. O capitalismo de Estado à chinesa, com seu coquetel de partido único, empresas públicas, planejamento, disciplina social e abertura controlada ao mercado mundial, arrancou da miséria a maior população do planeta em tempo recorde. Construiu infraestruturas que os EUA ou a Europa já não conseguem financiar. Tornou possível a única transição energética de grande escala atualmente em curso.

A palavra “capitalismo”, portanto, não basta para condenar a China. A palavra “socialismo” tampouco basta para compreendê-la. A questão decisiva é a da soberania política sobre a economia. No Ocidente, o Estado intervém massivamente, mas o capital conserva a hegemonia. Na China, o capital intervém massivamente, mas o Estado conserva o comando. Essa inversão muda tudo. Ela explica por que a mesma expressão — capitalismo de Estado — pode designar duas realidades opostas: aqui, um Estado capturado pelos interesses privados; lá, um Estado que captura, disciplina e reorienta a potência do capital.

Então, sim, a China é um capitalismo de Estado. Mas essa fórmula diz muito pouco enquanto não se explicita a correlação de forças que ela encobre. No Ocidente, o Estado salva o capital quando ele vacila, financia suas infraestruturas quando elas se tornam indispensáveis, absorve suas perdas quando elas ameaçam o sistema e depois lhe devolve os lucros. Na China, o Estado utiliza o capital, o enquadra, o corrige, o pune e o orienta para objetivos de potência coletiva.

Em um mundo cada vez mais instável, onde as cadeias de abastecimento se rompem e a competição por recursos se intensifica, o Estado chinês garante, além disso, uma resiliência econômica sem equivalente: a segurança do abastecimento de petróleo, matérias-primas e alimentos. Nenhum outro Estado faz isso nessa escala.

Se a fórmula “capitalismo de Estado” incomoda, é porque ela obriga a reconhecer que um Estado que domina o capital pode obter mais para sua população do que mercados entregues a si mesmos.

18/04/2026

Le meilleur alibi : le sionisme, un colonialisme travesti en mouvement de libération nationale

Luis E. Sabini Fernández, 18/04/2026
Traduit par Tlaxcala

Quel autre projet colonial, quel État a exercé le colonialisme le plus effréné, avec la plus grande impunité morale et psychique, que le sionisme ?

Il n’existe pas de cas identique, bien que certains s’en soient approchés. Tels la construction des USA, de l’Afrique du Sud – non pas la colonisation anglo-saxonne en plein pillage planétaire, mais les premiers établissements boers du XVIe siècle, contemporains des colonies nord-européens en Amérique du Nord. D’autres cas de colonialisme cherchant sa propre légitimation comme s’il n’était pas colonialiste, furent ceux des pieds-noirs en Algérie ou, passé le moment de la conquête, les pays du Río de la Plata. Mais aucun d’eux ne peut se comparer en termes de déni du caractère colonial au sionisme.

Le colonialisme sioniste est un cas unique avec un alibi exclusif ; celui que l’historien juif Norman Finkelstein a justement qualifié d’« industrie de l’Holocauste ». Cette assurance idéologique est ce qui permettra à la « lutte pour la libération nationale » sioniste de jouir de la meilleure conscience tranquille, depuis le socialisme, depuis la pensée critique, depuis l’irréalité, en mentionnant la « libération des peuples opprimés », et lui conférera par là une portée et une profondeur sans pareilles dans l’élaboration idéologique et programmatique.

La première et principale difficulté de tout colonialisme réside dans le fait qu’il est très difficile de VOIR les colonisés.

Le sionisme s’est doté d’une série d’armures et d’alibis d’une ingéniosité indéniable, au point qu’il a également conquis les âmes de ses représentants, qui ne se sentaient nullement colonialistes, spoliateurs de terres étrangères, comme les Anglais en Afrique ou les Espagnols en Amérique.

Au tournant du XIXe au XXe siècle, le socialisme était devenu la solution entrevue, juste, adéquate, désirée, face aux « excès » du capital privé et de ses représentants, avec une énorme validité virtuelle (du moins dans notre Occident).

Le socialisme répondait culturellement et psychiquement, aussi bien à un Citizen Kane qu’à un Kurtz, si l’on se réfère à l’expansion capitaliste. Et il était également une réponse aux formations de l’État absolu, aussi bien d’un Louis XVI que du roi belge Léopold II, le pédagogue des mutilations.

Et peut-être la première armure idéologique du sionisme a-t-elle été de s’identifier au socialisme (et aussi au nationalisme ; une autre idéologie, alors contemporaine et également libératrice. Il y eut deux sionismes au début du XXe siècle ; l’un s’identifiant (en paroles) à une certaine démocratie sociale ; l’autre, nationaliste, dit révisionniste, de type nazi-fasciste).

Mouvement de libération nationale ou d’oppression nationale ?

Au milieu du XXe siècle, mes amis juifs et moi-même nous sentions socialistes, universalistes. Assez pour avoir des amis et même des conjoints non juifs, bien que mes amis se sentissent suffisamment juifs pour embrasser la construction d’Israël, faire l’aliyah pour se trouver, alors oui, dans une vraie patrie.

Le socialisme les amenait à rejoindre des kibboutz, un socialisme à visage juif. Certes, un socialisme juif, c’est-à-dire non universaliste (donc, pas socialiste). Mais presque ; nous étions invités à participer par des visites et des contributions à cette édification. Pas exactement tous ; Uruguayens, Argentins, Italiens, Suédois... Arabes non. Curieux. Ils étaient plus proches, pour ainsi dire à côté.

Mes amis kibboutzniks ne mentionnaient jamais un Arabe, quoi que ce soit d’arabe. Et ils étaient parmi les « rebelles », appartenaient à des kibboutz de gauche. Ils connaissaient et sympathisaient, par exemple, avec les « panthères noires » israéliennes, qui étaient les exclus de là-bas par les juifs dominants, ashkénazes. Les Juifs mizrahim, d’origine arabe, généralement un peu plus foncés que les Ashkénazes d’origine européenne (avec ou sans passage par les pays américains).[1]

Il y avait alors un silence assourdissant concernant les Arabes, la population qui était peu à peu dépossédée. Résistant. Les accrochages de rue se succédaient et mes amis ne parlaient jamais des Arabes ; seulement que la police israélienne était honorable, qu’elle ne torturait pas parce que ses codes éthiques ne le permettaient pas (ni ne permettaient à la direction policière ou politique de l’employer...).

Ce « tant de pureté de conduite » contrastait avec les rapports journalistiques croissants qui disaient précisément le contraire (généralement de source palestinienne, qui n’était pas fiable pour mes amis).

Ni ceux qui étaient « mes amis », ni les autres n’eurent jamais un mot ni des yeux pour voir ce qu’un journaliste italien, Gennaro Carotenuto, vit en visitant Israël seulement quelques jours à l’aube du nouveau siècle : que les Israéliens gaspillaient l’eau dans des piscines et pour laver leurs voitures, alors qu’à quelques mètres, les Palestiniens manquaient d’eau ne serait-ce que pour donner à boire à leurs enfants[2] ; que les « difficultés » de rue entre Israéliens étaient traitées par des policiers, et avec les Palestiniens par des soldats de l’armée ; que les Israéliens avaient des maisons avec beaucoup de « confort » et les Palestiniens, en revanche, avaient des logements en mauvais état (bien que certains portent les traces d’une splendeur passée) et leurs habitants vivaient entassés (les règlements sur le logement refusaient aux Palestiniens le droit de construire ne serait-ce qu’une pièce, et par conséquent, ils devaient en permanence se réorganiser dans des espaces de plus en plus étroits, par exemple lors d’une naissance, ou en cas d’effondrement d’un bâtiment ou d’une confiscation publique pour étendre un service – israélien – de la ville. Les Palestiniens ne recevaient jamais plus de terre ni de permis de construire, quitte à « se débrouiller » avec ce qui leur restait... La politique de restriction, si caractéristique de l’étranglement à bas bruit du projet israélien.

Le dialogue avec mes vieilles connaissances s’est peu à peu rétréci jusqu’à cesser expressément.[3]

Se sentir socialiste, partisan de la fraternité universelle, quel bel alibi pour exercer une domination despotique !

Colonies du KKL dans le Naqab/Néguev occidental, encerclant la Bande de Gaza. Sopuligné en rouge, Ein Hashlosha, un kibboutz fondé en 1950 par des jeunes "pionniers" uruguayens et argentins

Une Palestine sioniste

L’implantation de juifs, désormais sionistes, sur les terres palestiniennes, a eu dès le début des caractéristiques très nettes. Et contrairement aux immigrants qui, par exemple en Amérique du Sud, ont lentement imprégné leurs propres cercles sociaux et linguistiques, et ont créé des sociétés mixtes, dans le cas des immigrants organisés par le sionisme pour s’établir en Palestine, les traits furent constitutionnellement différents : ils venaient avec un plan général et préalable, disposé par le Fonds national juif (Keren Kayemeth LeIsrael) qui incluait l’apprentissage de la langue juive, l’hébreu, qui était resté pendant des siècles uniquement comme rituel de lecture religieuse. « Redonnant vie » à la langue dans la vie quotidienne. Et avec la langue, un réseau culturel général spécifiquement juif, sans imprégner un atome de la présence réelle et quotidienne de la population palestinienne, de sa culture et de ses religions (majorité musulmane, minorité chrétienne et une minorité encore plus petite, juive). Au début de ce processus (aliyah) parmi les juifs, il y aura des conflits et des escarmouches entre le Vieux Yichouv [communauté juive] et le Nouveau Yichouv ; y compris des conflits sanglants.

Il s’agissait de deux judaïsmes différents ; le sionisme ne tolérera pas la moindre concession à ce qui est vraiment historique en Palestine : son projet sera purement idéologique.[4]

Avec le temps, l’implantation sioniste effacera peu à peu ses traits les plus humanistes (Buber, Chomsky, Borojov) et accentuera son racisme et son suprémacisme les plus débridés (Ben Gourion, Zeev Jabotinski, Golda Meir, Ehud Barak, Yitzhak Rabin, Menahem Begin, Ayelet Shaked, Naftali Bennett, Ariel Sharon, Benyamin Netanyahou).

Nous en sommes ainsi à ce que Salahj Eddin qualifia très justement en 2001 de « fascisme théocratique ».[5]

Temps du mépris biblique

Il est important de savoir que les traits colonialistes et leur brutalité intime et leur racisme ne sont pas des dérivations plus ou moins fortuites, comme le postulent tant de sionistes « de gauche ». Ben Gourion lui-même – interviewé comme modéré et opposé au « sionisme de droite » – soutenait déjà en 1948, année inaugurale, que « toute la nation est l’armée ».[6] Et il le corrobore lorsqu’il place (à quelques semaines de l’assassinat) parmi ses gardes du corps l’ignoble assassin de Folke Bernadotte, le premier médiateur de l’ONU, qui osa revendiquer des droits non seulement pour les juifs mais aussi pour les Palestiniens.

Pour comprendre la gravité du comportement israélien, il faut réaliser, comme le soutient Israel Shamir (juif converti au christianisme orthodoxe), que les atrocités que nous voyons quotidiennement commises par les Israéliens contre les Palestiniens, parfois en souriant, comme s’ils en jouissaient, ont des racines religieuses encore plus fortes que politiques : lorsqu’ils déclenchent des hostilités par surprise contre l’Iran un samedi et assassinent entre cent et deux cents fillettes, ils le font en pleine veille religieuse, agissant avec Dieu de leur côté, pensent-ils.

Face au poids, de plus en plus écrasant du sionisme dans le concert mondial, à sa domination sur l’État considéré comme le plus fort de la planète, nous pouvons revendiquer la présence de juifs, de nombreux juifs rompant leurs amarres avec un développement aussi monstrueux.

Martín Gak, lui-même juif engagé dans la dénonciation des crimes sionistes, a mené une formidable entretien avec Stephen Kapos (fév. 2026), un juif hongrois, à vrai dire un Transylvain né hongrois et après la Seconde Guerre mondiale avec le « redessinage » des frontières devenu roumain, né en 1937 et qui cette année, à 89 ans, se souvient lucidement de cette époque. Et il se souvient des « nazis » et des « juifs » d’alors.

Il brise tous les lieux communs et préjugés auxquels les médias d’incommunication de masse nous ont habitués. Lorsqu’il parle de l’armée nazie, qui occupait sa région natale, il dit : c’étaient « des gens normaux ». « J’ai trouvé la Wehrmacht assez humaine ». Des paroles « sacrilèges », pour La Voix de l’Amérique, par exemple.

Et il se souvient de sa visite à Haïfa, pour voir ses oncles qui avaient émigré en Israël après la Seconde Guerre mondiale. Il avait environ 20 ans et il voit [je suppose à la télévision] une manifestation de Palestiniens, pacifique, dans les rues (il ne précise pas si c’est à Haïfa ou dans une autre ville) et il voit soudain apparaître des hélicoptères armés qui déchargent leurs projectiles sur les manifestants. Il est horrifié, bien qu’il n’ait pas pu savoir si les Palestiniens étaient touchés par des projectiles (non) mortels ou par des balles réelles. Sa tante observe sa réaction et lui dit, étonnée, plutôt agacée : « Pourquoi tout ce chahut, tu ne vois pas que ce ne sont que des Arabes ? » Stephen a écarté l’idée de faire ou refaire sa vie en Israël.

Gilad Atzmon, un autre ex-juif, que nous pourrions appeler objecteur de conscience juif, nous rappelle : « les fréquentes mentions de violence et d’extermination des autres contenues dans la Bible hébraïque peuvent jeter quelque lumière sur l’abominable génocide que l’État juif pratique en ce moment à Gaza... sans montrer pour eux [pour les Palestiniens] la moindre once de miséricorde. » (« L’Ancien Testament et le génocide à Gaza », 8-1-2009)

Il nous est chaque jour plus clair, le titre formidable que Ron Unz, un autre juif lucide et audacieux, a donné à l’un de ses articles : « Israël sioniste comme nation assassine ».

Notes

[1] La compagne d’un de mes amis, basanée et avec des ancêtres amérindiens, avait des difficultés à se déplacer seule dans les rues israéliennes dans les années 60, elle subissait tout le temps des agressions verbales. Et elle, qui n’était ni panthère, ni mizrahi, ni même juive, avait même des difficultés linguistiques pour se défendre.

[2] L’approvisionnement en eau était et est administré par Mekorot, la compagnie publique régulatrice de l’eau, qui vend l’eau à des prix subventionnés aux juifs et à prix plus élevé aux Palestiniens appauvris.

[3] En réaction, il m’a fallu subir la réprobation de compatriotes, non juifs, frères et sœurs de conjoints non juifs de juifs « de retour » qui s’installaient en Israël incarnant un retour irréel, mythique, totalement étranger à leurs biographies corporelles ou ethniques. Ashkénazes, Mizrahim, Séfarades, Falashas ne sont pas tous le même peuple (de Dieu).

[4] Rarement j’ai vu le vieil apophtegme de l’admirable Francisco de Goya mieux vérifié : « Le sommeil de la raison engendre des monstres ».

[5] Palestina en lucha, Madrid, oct. 2001.

[6] Haim Bresheeth-Zabner, An Army Like No Other. How the Israel Defense Force Made a Nation, Verso, 2020

La mejor coartada: el sionismo, colonialismo travestido en movimiento de liberación nacional

Luis E. Sabini Fernández, 18-04-2026

¿Qué otro proyecto colonial, qué Estado ha ejercido el colonialismo más rampante, con mayor impunidad moral y psíquica, de cómo lo ha ejercido, lo ejerce el sionismo?

No hay un caso igual, aunque haya habido algunos que se les han acercado. Tal el de la construcción de los USA, el de África del Sur ─no lo anglo, colonizando en pleno saqueo planetario sino en los primeros asentamientos Boers, del siglo XVI, contemporáneos a los asentamientos norteuropeos en América del Norte. Otros casos de colonialismo buscando su propia legitimación como si no fuera colonialista, fue el de los pies negros, en Argelia o, pasado el momento de conquista, el de los países platenses. Pero ninguno de ellos se compara con la negación a lo colonial del sionismo.

El colonialismo sionista es un caso único con coartada exclusiva; la que con buen tino el historiador judío Norman Finkelsteín ha calificado como tal a la “industria del holocausto”. Ese seguro ideológico será el que le permita “a la lucha por la liberación nacional” sionista disfrutar de la mejor buena conciencia, desde el socialismo, desde el pensamiento crítico, desde la irrealidad, mencionando la ‘liberación de los pueblos sojuzgados’, y le otorgará por ello, un alcance y profundidad sin parangón en la elaboración ideológica y programática.

La primera y principal dificultad de cualquier colonialismo estriba en que es muy difícil VER a los colonizados.

El sionismo se pertrechó con una serie de armaduras y coartadas de innegable ingeniosidad, al punto que conquistó también las almas de sus personeros, que no se sentían, para nada, colonialistas, arrebatadores de tierras ajenas, como los ingleses en África o los españoles en América.

En el cambio de siglo, del XIX al XX, el socialismo se había ido convirtiendo en la entrevista solución, justa, adecuada, anhelante, ante “los excesos” del capital privado y sus representantes, con enorme vigencia virtual (al menos en nuestro Occidente).

El socialismo respondía cultural y anímicamente, tanto a un Citizen Kane como a un Kurtz, si nos referimos a la expansión capitalista. Y era asimismo respuesta a las formaciones del estado absoluto, tanto de un Luis XVI como del rey belga Leopoldo II, el pedagogo de las mutilaciones.

Y tal vez la primera armadura ideológica del sionismo haya sido identificarse con el socialismo (y también con el nacionalismo; otra ideología, entonces contemporánea y también manumisora. Hubo dos sionismos a comienzos del s XX; uno identificándose (de palabra) con cierta democracia social; otro, nacionalista, el llamado revisionista, de corte nazifascista).

¿Movimiento de liberación nacional o de opresión nacional?

A mediados del Siglo XX, mis amigos judíos y yo nos sentíamos socialistas, universalistas. Tanto como para tener amigos y hasta parejas no judías, aunque mis amigos se sentían suficientemente judíos como para abrazar la construcción de Israel, hacer aliá para hallarse, entonces sí, en una patria verdadera.

El socialismo los llevaba a sumarse a kibutzim, un socialismo con rostro judío. Eso sí, un socialismo judío, es decir no universalista (entonces, no socialista). Pero casi; estábamos invitados a participar con visitas y contribuciones a dicha edificación. No exactamente todos; uruguayos, argentinos, italianos, suecos… árabes no. Curioso. Estaban más cerca, como quien dice al lado.

Mis amigos kibutzniks no mencionaban jamás a un árabe, a algo árabe. Y eran de los “rebeldes”, pertenecían a kibutzim de izquierda. Conocían y simpatizaban, por ejemplo, con “las panteras negras” israelíes, que eran los excluidos allí por los judíos dominantes, askenazíes. Judíos mizrahim, de origen árabe, generalmente una pizca más oscuros que los askenazíes de origen europeo (con puente o no por países americanos).[1]

Había entonces un silencio estridente respecto de los árabes, la población que estaba siendo paso a paso despojada. Resistiendo. Los roces callejeros se sucedían y mis amigos no hablaban nunca de árabes; únicamente que la policía israelí era honorable, que no torturaba porque sus códigos éticos no se lo permitían (ni permitía a la dirección policial o política emplearla…).

Contrastaba “tanta pureza de conducta” con los crecientes informes periodísticos que decían precisamente lo contrario (generalmente de fuente palestina, que no era confiable para mis amigos).

Ni los que fueran “mis amigos”, ni los demás  tuvieron jamás una palabra ni ojos para ver lo que un periodista italiano, Genaro Carotenuto, vio con apenas visitar Israel unos días en los albores del nuevo siglo: que los israelíes derrochaban el agua en piscinas y lavando sus autos, en tanto, a pocos metros, los palestinos carecían de agua para incluso darles de beber a sus niños;[2] que las “dificultades” callejeras entre israelíes eran tramitadas por policías, y con palestinos por soldados del ejército; que los israelíes tenían casas con muchas “comodidades” y los palestinos, en cambio, tenían viviendas en mal estado (aunque algunas tuvieran las huellas de pasado esplendor) y sus habitantes convivían apretujados (los reglamentos habitacionales negaban a los palestinos el derecho a edificar siquiera una pieza, y por lo tanto, tenían que permanentemente reacomodarse en sitios cada vez más estrechos, por ejemplo con un nacimiento, o en caso de derrumbe de una edificación o por una confiscación pública para ampliar un servicio ─israelí─ de la ciudad. Los palestinos nunca recibían más tierra ni permisos de edificación, apenas “revolverse” con lo que les iba quedando…. La política constrictora, tan característica del estrangulamiento a ritmo lento del proyecto israelí.

 El diálogo con mis viejas amistades se fue angostando hasta acabar expresamente.[3]

Sentirse socialista, partidario de la fraternidad universal, ¡qué hermosa coartada para ejercer un dominio despótico!

Colonias del KKL en el Néguev occidental rodeando  la Franja de Gaza

Una Palestina sionista

El emplazamiento de judíos, ahora sionistas en tierras palestinas, tuvo desde el principio características muy nítidas. Y a diferencia de inmigrantes que por ejemplo en América del Sur fueron lentamente permeando sus propios círculos sociales e idiomáticos, y fueron creando sociedades mixtas, en el caso de los inmigrantes organizados por el sionismo para su asentamiento en Palestina, los rasgos fueron constitucionalmente distintos: venían con un plan general y previo, dispuesto  por el Fondo Nacional Judío (Keren Kayemeth LeIsrael) que incluía aprender el idioma judío, el hebreo, que había permanecido durante siglos, solo como ritual de lectura religiosa. “Reviviendo” el idioma en la vida cotidiana. Y junto con el idioma, una red cultural general específicamente judía, sin permear ni un átimo de la presencia real y cotidiana de la población palestina, su cultura y religiones (mayoría musulmana, minoría cristiana y minoría aún menor, judía). En el comienzo de este proceso (aliá) entre los judíos, habrá conflictos y escaramuzas entre el llamado Viejo Yishuv [colectividad judía] y el Nuevo Yishuv; incluso conflictos sangrientos.

Se trataba de dos judaísmos distintos; el sionismo no tolerará ni la menor concesión a lo realmente histórico en Palestina: su proyecto será puramente ideológico.[4]

Con el tiempo, el asentamiento sionista irá desvaneciendo sus perfiles más humanistas (Buber, Chomsky, Borojov) y acentuando su racismo y supremacismo más desembozado (Ben Gurión, Zeev Jabotinski, Golda Meir, Ehud Barak, Yitzhak Rabin, Menájem Beguín, Ayelet Shaked, Naftali Bennet, Ariel Sharon, Benjamíí Netanyahu).

Estamos así en lo que con mucho acierto Salahj Eddin calificara en 2001 al sionismo como “fascismo teocrático”. [5]

Tiempo de desprecio bíblico

Es importante saber que los rasgos colonialistas y su íntima brutalidad y racismo no son derivaciones más o menos fortuitas, como postulan tantos sionistas “de izquierda”. El mismo Ben Gurión ─entrevisto como moderado y enfrentado al “sionismo de derecha”─, ya sostenía en el inaugural año de 1948, que ”toda la nación es el ejército”.[6] Y lo rubrica cuando ubica (a semanas del asesinato) entre sus guardaespaldas al incalificable asesino de Folke Bernadotte, el primer mediador de la ONU, que se atrevió a reclamar derechos no sólo para judíos sino también para palestinos.

Para entender la gravedad del comportamiento israelí hay que darse cuenta, como sostiene  Israel Shamir (judío converso al cristianismo ortodoxo), que las atrocidades que vemos a diario cometidas por israelíes a palestinos, a veces sonrientes, como disfrutando, tiene raíces religiosas más fuertes aun que las políticas: cuando inician hostilidades por sorpresa contra Irán un sábado y asesinan entre cien y doscientes niñas lo hacen en plena vigilia religiosa, actuando con dios de su lado, consideran.

Ante el peso, cada vez más aplastante del sionismo en el concierto mundial, a su dominio sobre el estado considerado el más fuerte del planeta, podemos reivindicar la presencia de judíos, muchos judíos rompiendo amarras con tan monstruoso desarrollo.

Martín Gak, él mismo judío empeñado en denunciar los crímenes sionistas, ha llevado a cabo una formidable entrevista a Stephen Kapos (feb. 2026) un húngaro judío, en rigor un transilvano que nació húngaro y tras la IIGM con el “redibujo” de fronteras devino rumano, nacido en 1937 y que este año, con sus 89, rememora lúcidamente aquel tiempo. Y recuerda a “los nazis” y a “los judíos” entonces.

Rompe todos los lugares comunes y prejuicios a que los medios de incomunicación de masas nos tienen acostumbrados. Cuando habla del ejército nazi, que ocupó su territorio natal, dice: eran “gente normal”. “Encontré al ejército de la Wehrmacht bastante humano”. Palabras “sacrílegas”, para La Voz de America, por ejemplo.

Y recuerda su visita a Haifa, a ver a los tíos que tras la IIGM habían emigrado a Israel. Tenía unos 20 años y ve [supongo que por TV] una manifestación de palestinos, pacífica, en las calles (no aclara si en Haifa o en otra ciudad) y ve de pronto aparecer helicópteros artillados que descargan sus proyectiles sobre los manifestantes. Se horroriza, aunque no pudo saber si los palestinos eran alcanzados por proyectiles no (tan) mortales o balas reales. La tía observa su reacción y le comenta extrañada, tirando a molesta: “─Qué tanto lío, ¿no ves que son sólo árabes?” Stephen descartó hacer o rehacer su vida en Israel.

Gilad Atzmon, otro exjudío, lo que llamaríamos objetor de conciencia judía nos recuerda: “las frecuentes menciones de violencia y exterminio de otros contenidas en la Biblia hebrea puede arrojar cierta luz sobre el abominable genocidio que el estado judío está practicando en este momento en Gaza… sin mostrar  por ellos [por los palestinos]  ni un ápice de misericordia.(El Antiguo Testamento y el genocidio en Gaza”, 8-1-2009)

Cada vez nos queda más claro el tremendo título que Ron Unz, otro judío lúcido y osado, pusiera a uno de sus artículos: “Israel sionista como nación asesina”.

➤ Léase también sobreUruguayos caídos en las guerras de Israely el movimiento Hanoar Hatzioni B Uruguayfundador de varios kibutzes uruguayos y argentinos, entre ellos Ein Hashlosha, en el desierto del Neguev, à 2 km de Gaza (ver mapa arriba)  [N. del Ed.]

Notas

[1]   La pareja de uno de mis amigos, morocha y con ancestros amerindios, tenía dificultades para transitar sola por calles israelíes en los ’60, nunca faltaba una pendencia. Y ella, que no era pantera, ni mizraji, ni siquiera judía; tenía hasta dificultades idiomáticas para defenderse.

[2]   El suministro de agua era y es administrado por Mekorot, la compañía estatal reguladora del agua, que vende con subsidio el agua a judíos y encarecida a los empobrecidos palestinos.

[3]   Como coletazo, me tocó recibir la repulsa de compatriotas, no judíos, hermanos de cónyuges no  judíos de “retornantes” judíos que se instalaban en Israel encarnando un retorno irreal, mítico, totalmente extraño a sus biografías corporales o étnicas. Askenazíes, mizrajis, sefaradíes, falashas no son todos el mismo pueblo (de dios).

[4]  Pocas veces he entrevisto más acertado el viejo apotegma del admirable Francisco de Goya: “El sueño de la razón produce monstruos”.

[5]   Palestina en lucha, Madrid, oct. 2001.