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29/06/2026
24/06/2026
Tunisia Renewable Energy Strategy: Resistance EN->IT FR DE ES PT
Why Tunisia’s renewable energy
strategy is facing resistance
Saber Ammar and Hamza Hamouchene, Al-Jazeera, 20 Jun 2026
Perché la strategia sulle energie rinnovabili della Tunisia sta incontrando resistenze
Saber Ammar e Hamza Hamouchene,
Al-Jazeera, 20 giugno 2026
Pourquoi
la stratégie en matière d’énergie renouvelable se heurte à des résistances en
Tunisie
Saber Ammar et Hamza Hamouchene, Al-Jazeera, 20 juin 2026
Warum Tunesiens Strategie für erneuerbare
Energien auf Widerstand stößt
Saber Ammar und Hamza Hamouchene, Al-Jazeera, 20.
Por qué la estrategia en materia de
energías renovables de Túnez enfrenta resistencia
Saber Ammar y Hamza Hamouchene, Al-Jazeera, 20 de junio de 2026
Porque a estratégia de energias renováveis da Tunísia enfrenta resistência
22/06/2026
A 250.000 votos de distância: Abelardo vence Iván Cepeda na Colômbia
O resultado caiu como um golpe de malho: o candidato reacionário Abelardo de la Espriella derrotou no domingo o candidato de esquerda Iván Cepeda com menos de 1% de diferença (12.959.542 votos contra 12.708.712). Abaixo, uma primeira análise dos resultados. –FG, Tlaxcala
O panorama eleitoral: duas Colômbias frente a frente
Os bastiões conservadores do centro e dos Andes
Abelardo de
la Espriella construiu a sua vitória sobre uma base territorial claramente
identificada: os departamentos do centro do país, as regiões andinas e parte
das planícies orientais. Antioquia constitui o coração do seu eleitorado
com 2,18 milhões de votos (64,42%), mais de um milhão de vantagem sobre
o seu adversário. O domínio ali é esmagador, tal como em Norte de Santander
(76,56%) e Santander (64,58%).
O candidato
vence também em todo o Eixo Cafeeiro (Caldas, Quindío, Risaralda), em Tolima,
Huila, Boyacá e Cundinamarca. Estes departamentos, que
concentram uma parte importante da população e do PIB nacional, forneceram as
margens necessárias para a sua vitória na apuração nacional. Cundinamarca
e Antioquia figuram entre os departamentos mais populosos, o que explica
em parte a vitória final de De la Espriella apesar da sua derrota num maior
número de departamentos.
Os
bastiões progressistas: Caraíbas, Pacífico e Sul
Iván
Cepeda, por seu lado, vence 19 departamentos (incluindo Bogotá) contra
13 para o seu adversário, mas frequentemente com populações menos densas. Os
seus bastiões mais sólidos situam-se nas regiões periféricas:
- O
Pacífico colombiano: Chocó (81,37%), Cauca (75,64%), Nariño
(76,72%), Valle del Cauca (60,82%).
- O Sul amazónico: Putumayo (78,52%), Vaupés
(80,86%), Amazonas (61,89%).
- A região das Caraíbas: Bolívar (59,51%), Córdoba
(58,28%), Atlántico (58,61%), La Guajira (60,45%), Sucre
(59,19%), Magdalena (57,02%).
- Bogotá D.C.: a capital, com os seus 2,23
milhões de votos (52,47%), constitui um importante bastião urbano para
Cepeda.
O Valle
del Cauca oferece um caso particularmente ilustrativo: Cepeda obtém ali 1,4
milhão de votos, ou seja, uma vantagem de 534.083 sufrágios sobre De
la Espriella, confirmando que este departamento é um dos principais bastiões da
esquerda na Colômbia.
O resultado eleitoral em estilo Botero
Análise sociológica das clivagens
Uma
clivagem centro-periferia
O mapa
eleitoral desenha uma clivagem geográfica maior entre:
- Os departamentos centrais e
andinos: economicamente
mais desenvolvidos, abrigando as elites tradicionais e os centros
industriais (Medellín, Bucaramanga), votaram no candidato conservador.
- As periferias: regiões costeiras (Caraíbas,
Pacífico) e zonas fronteiriças, historicamente marginalizadas, apoiaram
massivamente o candidato da mudança.
Esta
oposição não é nova na Colômbia: remete para a distinção histórica entre as
regiões andinas "conservadoras" e as regiões costeiras
"liberais", que o sistema político contemporâneo reativou.
A
dimensão étnica e racializada
Os
departamentos com elevada população afro-colombiana e indígena
pronunciaram-se maioritariamente por Iván Cepeda. Isto é particularmente
evidente em Chocó (81,37%), Cauca (75,64%) e Nariño
(76,72%), regiões onde as comunidades negras e indígenas estão historicamente
mobilizadas em torno de questões de justiça social e reconhecimento. A presença
de Aida Quilcué, figura indígena, como companheira de chapa de Cepeda, sem
dúvida reforçou este apoio.
Um voto urbano dividido
O voto das
grandes cidades é mais contrastado do que parece. Bogotá apoia Cepeda,
mas com uma margem relativamente modesta (52,47%). O Valle del Cauca
vota em Cepeda, mas Medellín, a segunda cidade do país, é um bastião de De la
Espriella. Os resultados confirmam uma fratura urbana, onde as grandes
metrópoles das regiões andinas pendem para a direita enquanto as das periferias
(Cali, Barranquilla, Cartagena) pendem para a esquerda.
Margens
apertadas em departamentos-chave
Alguns
departamentos foram muito disputados, refletindo uma sociedade colombiana
profundamente dividida:
- Caquetá: Cepeda vence por estreita
margem com 48,97% contra 48,7%.
- Guaviare: De la Espriella vence com 52,78%.
- Vichada: Cepeda impõe-se com 54,43%.
Estes
resultados testemunham a ausência de um bastião ideológico homogéneo nas zonas
de colonização recente e nas regiões fronteiriças.
O voto
no estrangeiro
Um ponto
notável: De la Espriella vence amplamente entre os colombianos no
estrangeiro (63,76%), com 382.000 votos contra 208.000 para Cepeda. Este
voto da diáspora, frequentemente composta por classes médias e superiores
expatriadas, contribuiu de forma significativa para a sua vitória.
Conclusão:
uma Colômbia geograficamente fraturada
A segunda
volta de 2026 confirma a geografia eleitoral da Colômbia como um espaço
de tensões entre duas visões do país. O candidato conservador, De la Espriella,
soube capitalizar os bastiões tradicionais do centro e dos Andes, enquanto
Cepeda reuniu um arquipélago de periferias: Pacífico, Caraíbas, Amazónia e a
capital.
Esta
configuração recorda que a clivagem política colombiana continua fortemente territorializada,
com cada região a exprimir expectativas sociais, económicas e identitárias
distintas. A vitória apertada de De la Espriella (menos de 250.000 votos de
diferença) significa que terá de governar um país cuja ampla metade geográfica
não lhe concedeu a sua confiança.
06/06/2026
Comment une opération secrète de la DEA a fait dérailler le processus de paix colombien
Les USA affirment que Nicolás Maduro a soutenu des groupes “ narcoterroristes”. L’un d’entre eux a été créé par Washington
José Olivares, The Intercept/Drop Site News, 28 mai 2026
Traduit par Tlaxcala
Español - English - Português
28/04/2026
Sim, a China é um capitalismo de Estado — e daí?
Ao contrário do capitalismo ocidental, em que o capital controla o Estado, o modelo chinês se baseia em um Estado que controla o capital.
Professor visitante na Universidade Normal do Sul da China e autor do livro A Odisseia Chinesa, de Mao Zedong a Xi Jinping, Bruno Guigue, ex-subprefeito francês demitido pela ministra do Interior em 2008 por um artigo denunciando o lobby pró-Israel, publicou recentemente uma defesa argumentada da China na qual se recusa a qualificá-la como “capitalismo de Estado”, preferindo vê-la como um socialismo em transição [NON, LA CHINE N’EST PAS UN “CAPITALISME D’ ETAT”: NÃO, A CHINA NÃO É UM “CAPITALISMO DE ESTADO”]. Sua demonstração é útil porque lembra que a expressão é frequentemente usada como um insulto: à direita, para denunciar o estatismo chinês; à esquerda, para denunciar seu capitalismo.
Mas o debate rapidamente se torna estéril quando se reduz a decidir qual palavra deve prevalecer. O capital existe na China — ninguém contesta isso. Ele se acumula, enriquece, explora, produz desigualdades. No Ocidente, o Estado intervém massivamente, mas o capital mantém a hegemonia. Na China, o capital intervém massivamente, mas o Estado mantém o comando. É essa inversão que muda tudo.
Nossa posição é diferente. Não
buscamos vencer a batalha das definições. No fundo, pouco importa se falamos de
socialismo com características chinesas, capitalismo de Estado ou sistema
híbrido. O que importa é o que esse sistema faz às pessoas, concretamente, na
escala de 1,4 bilhão de vidas. E, se olharmos os resultados em vez dos rótulos,
uma conclusão se impõe: sim, a China é um capitalismo de Estado, no sentido de
que o Estado conduz a acumulação do capital — e é exatamente isso que lhe
permitiu oferecer à sua população a mais extraordinária melhoria das condições
de vida da história recente.
A China não é um capitalismo
liberal. Também não é um socialismo livre de mercado, de classes sociais, de
exploração e de fortunas privadas. É algo mais desconfortável para categorias
prontas: um capitalismo de Estado sob comando político comunista. O capital
existe, se acumula, enriquece e, às vezes, explora duramente. Mas não é
soberano. Não define sozinho a direção do país. Não tem a palavra final. É aí
que reside a diferença essencial.
Há vinte anos, multiplicam-se
artigos, relatórios e editoriais que usam a expressão como condenação
automática. “Capitalismo de Estado”. As palavras soam fortes e, no imaginário
ocidental, bastam para desqualificar um modelo inteiro. Subsídios, empresas públicas,
planejamento, controle de capitais: dizem-nos que a China não joga pelas
regras. Que venceria trapaceando aquilo que outros tentam conquistar na arena
“virtuosa” do livre mercado.
Admitamos. Levemos a acusação a
sério. Sim, a China contemporânea é um capitalismo de Estado. Mas é preciso
definir o que isso significa — e, sobretudo, o que isso produz.
Se chamarmos de capitalismo de
Estado um sistema em que o poder público possui os bancos, controla a alocação
de crédito, detém grandes redes de infraestrutura, orienta o investimento
industrial por planos quinquenais e mantém sob seu controle os setores
estratégicos — então a China é um. Está claro. Mas, uma vez dito isso, surge a
questão lógica: o que esse sistema produziu para o povo chinês, e em que escala
histórica?
Em quarenta anos, oitocentos milhões
de pessoas saíram da pobreza. Não da pobreza relativa, medida como porcentagem
da renda média nos países ricos, mas da miséria absoluta, onde comer duas vezes
ao dia não é garantido. O próprio Banco Mundial reconhece nisso a maior redução
de pobreza da história humana. Se o capitalismo de Estado chinês é um crime,
seria interessante saber qual outro sistema pode reivindicar tal resultado.
Dir-se-á que crescimento não é tudo.
Então vejamos a vida cotidiana. Noventa por cento das famílias chinesas são
proprietárias de suas casas. Nas grandes metrópoles ocidentais, esse número é
um sonho distante para gerações condenadas ao aluguel permanente. Água
encanada, eletricidade, acesso à saúde e à educação são hoje a norma até nas
regiões mais remotas. O país se encheu de trens de alta velocidade, hospitais,
universidades. O smog de Pequim diminuiu porque o Estado decidiu investir, em
poucos anos, mais em energias renováveis do que todos os outros países juntos.
Uma ditadura do capital de Estado, talvez; um desastre humano, claramente não.
O mais surpreendente no debate
ocidental é que poucos querem olhar esse balanço de frente. Discute-se
interminavelmente a natureza do regime, sua distância dos padrões liberais, a
ausência de concorrência perfeita. Mas, concretamente, o que deveria ter sido
feito? Entregar o desenvolvimento de um país de 1,4 bilhão de habitantes às
mãos invisíveis do mercado global? Deixar investidores estrangeiros definirem
prioridades industriais? Desmantelar os bancos públicos para que as taxas de
juros se ajustem às exigências dos credores internacionais?
Todos os países que passaram do
subdesenvolvimento ao status de potência o fizeram por formas, mais ou menos
duras, de capitalismo de Estado. A Alemanha do fim do século XIX, a França dos
Trinta Gloriosos, o Japão da era Meiji, a Coreia do Sul de Park Chung-hee,
Singapura, Taiwan: todos protegeram suas indústrias emergentes, planearam a
alocação de recursos, financiaram suas empresas líderes por meio de contratos
públicos e controlaram seu sistema bancário. A diferença chinesa é de escala e
continuidade — não de natureza. O que o Ocidente critica em Pequim, ele próprio
já fez quando precisou. Simplesmente, ele esqueceu — ou finge ter esquecido.
Também é
preciso observar o que o Ocidente faz, não apenas o que diz. A Lei de Redução
da Inflação dos EUA distribui centenas de bilhões em subsídios às indústrias
verdes instaladas no território. A Lei Chips financia com recursos públicos a
relocalização da produção de semicondutores. A União Europeia, há muito guardiã
do dogma da concorrência, flexibiliza suas regras para formar campeões
continentais. Na França, o Estado continua sendo o acionista de referência da
EDF, da SNCF e de parte do setor de defesa. O capitalismo de Estado está em
toda parte. A questão é saber se ele melhora a vida das pessoas ou se beneficia
apenas uma minoria.
E é aí que
o caso chinês incomoda mais. No capitalismo de Estado ao estilo ocidental, as
grandes iniciativas públicas são, na maioria das vezes, realizadas em benefício
final dos acionistas privados: socializa-se os riscos, privatiza-se os lucros.
Na China, a lógica é diferente. Os bancos públicos financiam pontes, linhas
ferroviárias e hospitais que nunca gerarão lucro no curto prazo, mas cuja
utilidade social é imensa. A propriedade final do solo permanece nas mãos do
Estado, o que permitiu conter a especulação imobiliária que se observa em outros
lugares. Os grandes empresários que cometem fraudes ou ameaçam a estabilidade
do sistema vão para a prisão. Esse é um indicador bastante confiável de quem
manda.
É aqui que Guigue aborda um ponto
essencial, mas tira uma conclusão excessivamente defensiva. Ele explica que a
China não é capitalista porque a oligarquia capitalista não detém o poder no
país. Mas essa observação não basta para fazer o capitalismo desaparecer. Ela
permite, ao contrário, precisar sua forma.
A China não é um capitalismo onde o
Estado serve ao capital. É um capitalismo em que o Estado comanda o capital, o
utiliza, o limita, o pune quando ele se torna perigoso e o orienta para
objetivos que o mercado, sozinho, jamais perseguiria.
Essa distinção permite escapar da
falsa escolha entre duas caricaturas: de um lado, a China como um paraíso
socialista já realizado; de outro, a China como um simples capitalismo
autoritário pintado de vermelho. A China é um país onde o capitalismo existe,
mas onde a classe capitalista não governa. Um país onde o mercado não constitui
o princípio supremo de organização social. Um país onde bilionários podem
prosperar, mas sabem que não são o Estado. Eles enriquecem dentro de um marco
definido pelo poder político, e não definindo esse marco em benefício próprio.
A prova disso é que, quando um deles ameaça a estabilidade ou a legitimidade do
sistema, o Estado o chama à ordem sem contemplações.
Resta a objeção moral, que muitas
vezes vem da esquerda radical: esse capitalismo de Estado continua sendo
capitalismo, com desigualdades, exploração, trabalhadores precários e
bilionários. É verdade. A China conta com fortunas colossais e trabalhadores migrantes
que vivem em condições duras. O socialismo com características chinesas não
aboliu as classes sociais. Ele integrou o mercado mundial, utilizou a
disciplina do trabalho industrial, aceitou a acumulação privada, permitiu a
formação de uma burguesia nacional e produziu contradições sociais massivas.
Mas a objeção, para ser aceitável,
precisa propor uma alternativa praticável. Que modelo de desenvolvimento não
capitalista, na escala de 1,4 bilhão de seres humanos, em uma economia mundial
estruturada por cadeias de valor transnacionais, provou sua viabilidade? O
Gosplan soviético industrializou um país imenso, mas não resistiu às suas
próprias rigidezes, nem à competição econômica e tecnológica de longo prazo. As
experiências autogestionárias envolveram comunidades restritas. Os socialismos
proclamados do Sul quase sempre foram estrangulados pela dependência externa,
pelas sanções, pela fragilidade industrial ou pela guerra. Nenhuma dessas vias
arrancou a pobreza de massa com a velocidade e a constância do “capitalismo de
Estado” chinês.
Pode-se achar isso triste. Pode-se
sonhar com um mundo em que a democracia direta dos produtores tivesse conduzido
a China da fome à prosperidade sem nunca passar pela exploração. Mas, por
enquanto, a realidade deu seu veredito. O capitalismo de Estado à chinesa, com
seu coquetel de partido único, empresas públicas, planejamento, disciplina
social e abertura controlada ao mercado mundial, arrancou da miséria a maior
população do planeta em tempo recorde. Construiu infraestruturas que os EUA ou
a Europa já não conseguem financiar. Tornou possível a única transição
energética de grande escala atualmente em curso.
A palavra “capitalismo”, portanto,
não basta para condenar a China. A palavra “socialismo” tampouco basta para
compreendê-la. A questão decisiva é a da soberania política sobre a economia.
No Ocidente, o Estado intervém massivamente, mas o capital conserva a
hegemonia. Na China, o capital intervém massivamente, mas o Estado conserva o
comando. Essa inversão muda tudo. Ela explica por que a mesma expressão —
capitalismo de Estado — pode designar duas realidades opostas: aqui, um Estado
capturado pelos interesses privados; lá, um Estado que captura, disciplina e
reorienta a potência do capital.
Então, sim, a China é um capitalismo
de Estado. Mas essa fórmula diz muito pouco enquanto não se explicita a
correlação de forças que ela encobre. No Ocidente, o Estado salva o capital
quando ele vacila, financia suas infraestruturas quando elas se tornam
indispensáveis, absorve suas perdas quando elas ameaçam o sistema e depois lhe
devolve os lucros. Na China, o Estado utiliza o capital, o enquadra, o corrige,
o pune e o orienta para objetivos de potência coletiva.
Em um mundo cada vez mais instável,
onde as cadeias de abastecimento se rompem e a competição por recursos se
intensifica, o Estado chinês garante, além disso, uma resiliência econômica sem
equivalente: a segurança do abastecimento de petróleo, matérias-primas e
alimentos. Nenhum outro Estado faz isso nessa escala.
Se a
fórmula “capitalismo de Estado” incomoda, é porque ela obriga a reconhecer que
um Estado que domina o capital pode obter mais para sua população do que
mercados entregues a si mesmos.
18/03/2026
Quanto mais o golpeiam, mais forte ele fica: o paradoxo do Irã que escapa à estupidez imperial
Tahar Lamri, 16/3/2026
Há
uma categoria que falta no debate sobre a guerra em curso contra o Irã, e sua
ausência explica por que aqueles que a combatem continuam errando tudo.
O Irã
não é um movimento de partisans como a FLN argelina, que era uma frente sem
dogma unificador - coalizão de nacionalistas, socialistas, comunistas,
conservadores - mantida unida por um único objetivo: expulsar o colonizador.
Não é o Vietnã do Norte, que era um estado numa parte do território com uma
doutrina exportável - o comunismo - mas dependente de Moscou e Pequim e
geograficamente limitado. Hamas, Hezbollah, os Houthis são milícias, entidades
subnacionais que usam táticas de guerrilha porque não têm alternativa: sua
assimetria é forçada, não escolhida.
O Irã
é algo diferente e historicamente novo: representa o primeiro caso histórico de
um estado que adota estruturalmente a doutrina da guerra de partisans como
escolha estratégica soberana, combinando a legitimidade e os recursos de um
estado com a lógica operacional do movimento de resistência. Tem um exército
regular, mísseis balísticos, uma marinha, instituições reconhecidas, é um
estado westfaliano em todos os aspectos. E no entanto, escolheu deliberadamente
a doutrina da guerra de partisans como estratégia soberana: saturação com armas
econômicas, desgaste, aceitação consciente das perdas territoriais para tornar
o custo insustentável para o adversário. Não porque não pudesse fazer de outra
forma, mas porque avaliou que era a estratégia ótima contra uma superioridade
convencional esmagadora.
Essa
escolha tem uma consequência econômica devastadora para quem o combate. Um
drone Shahed custa vinte mil dólares. Um interceptador THAAD custa 12,7 milhões
de dólares. O Irã lançou na primeira semana de guerra quinhentos mísseis
balísticos e quase dois mil drones. A matemática é impiedosa: a guerra pobre
faz a guerra rica pagar um custo insustentável: não no campo de batalha, mas
nas cadeias de suprimentos, nos orçamentos, nos estoques de interceptadores que
se esgotam mais rápido do que podem ser produzidos.
Mas a
novidade mais profunda não é militar: é estrutural. O Irã institucionalizou uma
contradição que todos os movimentos de libertação tiveram que escolher: ser
estado ou ser revolução. A Argélia depois de 1962 escolheu ser estado e deixou
de ser revolução. Cuba tentou ambas e falhou. O Irã não: construiu
deliberadamente uma dualidade permanente. O exército regular é o estado
westfaliano. Os Pasdaran - os Guardas da Revolução - são a revolução
permanente, com suas redes regionais, suas ramificações no Iêmen, Iraque,
Líbano, todas unidas não por uma ideologia laica mas por uma fé: o islamismo
xiita como identidade, memória, trauma fundador. Não se escolhe ser xiita como
se escolhe ser comunista. É família, luto, corpo. Karbala não é um evento
histórico: é um paradigma cosmológico que se repete.
O
resultado é um internacionalismo religioso que não é uma aliança entre estados,
não é uma Internacional leninista, mas uma rede transnacional mantida unida por
uma gramática existencial comum que não precisa de um centro de comando
explícito para se coordenar.
E
então EUA e Israel fizeram o maior presente: criaram o panteão. Soleimani,
Nasrallah, Khamenei: cada eliminação direcionada que pensavam resolver um
problema estratégico produziu um mártir que multiplica a coesão da rede. Na
teologia xiita, a morte do líder justo pelas mãos do opressor não é uma
derrota: é a confirmação de sua justiça. É a estrutura narrativa de Karbala. Um
general vivo pode errar, pode decepcionar, pode envelhecer. Um mártir é eterno
e perfeito. Reescreveram, com seus mísseis, o roteiro que o outro lado
esperava.
A República Islâmica do Irã tem como ideal a felicidade humana em toda a sociedade e considera que a conquista da independência, da liberdade e do império da justiça e da verdade é um direito de todos os povos do mundo. Consequentemente, ao mesmo tempo em que se abstém escrupulosamente de qualquer forma de ingerência nos assuntos internos de outras nações, apoia as lutas justas dos mustadhafoun (oprimidos) contra os mustakbirun (opressores/arrogantes) em todos os cantos do mundo.
Constituição da República Islâmica do Irã, Capítulo 10, Artigo 154
Mas
há um último erro, talvez o mais grave. Israel atingiu os bancos do Hezbollah
(o Instituto Al Qardh al-Hassan) e o maior banco iraniano (Bank Sepah). No
mundo xiita khomeinista, o banco não é uma instituição financeira: é a
infraestrutura material da teologia. É o mecanismo através do qual se distribui
o zakat, se financiam as obras de caridade, se mantém o pacto com os
mustazaafin, os mais fracos, os oprimidos, os condenados da terra de Fanon.
Khomeini construiu o consenso da revolução sobre esta rede capilar de
solidariedade material. Atingi-la não enfraquece a narrativa da resistência: a
confirma. Demonstra, na vida cotidiana de milhões de pobres, quem são os
inimigos dos fracos. É a melhor propaganda possível, realizada pelas próprias
bombas israelenses.
Juntando
tudo: está-se combatendo com a lógica da guerra convencional - decapitar a
estrutura, cortar o financiamento, destruir infraestruturas - uma forma
política que não é uma estrutura convencional. É uma rede simbólica, social,
militar e religiosa deliberadamente construída para ser indestrutível
precisamente através da destruição. Cada bomba que cai fortalece o narrativa.
Cada mártir consolida o panteão. Cada banco atingido mostra aos pobres de que
lado está o opressor.
E se
o estado iraniano for desmembrado ou derrotado, os Pasdaran sem estado - treinados,
armados, formados numa cultura do martírio que não depende de nenhuma
instituição para sobreviver - espalhar-se-iam por uma região que vai do Líbano
ao Paquistão, do Azerbaijão ao Bahrein, com ramificações em três continentes.
Não mais contidos por nenhuma estrutura estatal, sem nada a perder, com
mártires poderosíssimos e uma narrativa de resistência mais forte do que antes.
Um estado iraniano hostil é dissuadível. Um enxame de Pasdaran sem estado não o
é.
E
enquanto tudo isso acontece, três sinais dizem o quão profundamente esta guerra
está escapando ao controle narrativo de quem a desencadeou.
A
Turquia esperava milhões de refugiados iranianos fugindo das bombas. Viu, em
vez disso, milhares de iranianos cruzando a fronteira na direção oposta, para
regressar a defender a pátria. Não necessariamente o regime: o Irã. A
civilização persa de quatro milênios que não se deixa reduzir à equação “regime
igual a povo”. O nacionalismo ferido produz o que anos de oposição política não
conseguem construir.
E
depois há Gaza. O Irã é atacado depois que o mundo assistiu durante meses ao
genocídio palestino transmitido ao vivo, documentado, negado pelas chancelarias
ocidentais. Para os pobres da terra, para o Sul global, para qualquer um que se
sinta do lado dos humilhados, a sequência é legível e brutal: quem defendia os
palestinos é agora bombardeado pelos mesmos que armavam quem os massacrava. O
Irã tornou-se, no imaginário global dos condenados, algo que vai muito além da
política regional ou da teologia xiita: é a promessa de que se pode resistir, é
a vingança simbólica de quem nunca teve justiça. Essa solidariedade não tem
fronteiras confessionais nem geográficas.
Finalmente,
há a China. Seus estrategistas não estão olhando para a guerra: estão
conduzindo a mais detalhada avaliação possível das capacidades reais euamericanas
em condições de conflito de alta intensidade. Cada interceptador THAAD
disparado, cada Tomahawk lançado, cada dia de guerra é um dado sobre a
resistência logística e industrial do adversário que terão que enfrentar, um
dia, no Pacífico. Veem os estoques se esgotarem, os tempos de produção não
acompanharem o consumo, a cadeia logística sob pressão. Estão tomando notas. E
não precisam lutar para ganhar esta guerra: basta-lhes esperar que a EUAmérica
fique sem munições.
Esta
guerra não pode ser vencida. Só pode ser alargada. E o mundo sabe disso.
17/03/2026
O ataque ao Irão provoca dissensão nas Forças Aramadas dos EUA. O que virá a seguir?
John
Catalinotto, workers world, 13/3/2026
Traduzido
por Mudar de vida
A batalha
que começou com o ataque não provocado da máquina de guerra EUA-Israel contra o
Irão, em 28 de fevereiro, expandiu-se nos seus primeiros 11 dias para uma
conflagração regional e está a avançar a uma velocidade sem controlo rumo a uma
guerra mundial.
A organização Veteranos pela Paz oferece
assistência a soldados dissidentes
Activistas pacifistas e anti-imperialistas nos
Estados Unidos — nas entranhas do monstro — têm o dever especial de fazer tudo
o que estiver ao seu alcance para deter esta guerra. E há uma área em que eles
estão na melhor posição para agir: entrar em contacto com membros das forças
armadas usamericanas.
O primeiro ponto a deixar claro ao planear essa
luta é que a classe dominante super-rica dos Estados Unidos e os regimes
reaccionários racistas que comandam os estados opressores, tanto os EUA como
Israel, são os criminosos responsáveis pelas consequências terríveis da guerra. O movimento pacifista deve expor esses crimes e procurar
desmantelar a máquina de guerra desses criminosos.
Apoio popular mínimo à guerra nos EUA
Comparada com as últimas seis longas guerras de
agressão dos EUA – Coreia, Vietname, Iraque (1991), Jugoslávia, Afeganistão e
Iraque (2003) – esta potencial “guerra sem fim” contra o Irão é a que enfrenta
maior oposição interna. A guerra contra o Irão começou com bombas e foguetes
americanos que mataram mais de 150 estudantes na cidade de Minab, e com o
assassinato, por Israel, do líder político e religioso supremo do Irão, o
aiatolá Ali Hosseini Khamenei, em 28 de fevereiro.
Antes de desencadear a conflagração, o regime
MAGA não fez nenhum esforço para obter apoio para a agressão, nem entre o povo,
nem no Congresso, nem buscando aliados internacionais além dos criminosos
genocidas que administram o estado colonialista israelita. O regime contava com
as grandes mentiras de décadas que demonizavam o Irão.
Desde o massacre inicial em Minab, que lembra o
incêndio da aldeia de My Lai no Vietname em 1968, cada bajulador do governo
MAGA e o impopular presidente dos EUA têm dado explicações contraditórias sobre
como a guerra começou, quanto tempo durará, se haverá envio de tropas
terrestres e qual o objectivo. As suas mentiras contraditórias só fizeram
diminuir a sua credibilidade.
Mesmo antes de serem relatadas extensas baixas
entre as tropas usamericanas, mesmo antes de o custo militar diário de mil
milhões de dólares desta “guerra de opção” EUA-Israel se tornar evidente (csis.org), mesmo antes de a guerra
desencadear um desastre económico mundial, a maioria da população dos EUA
opõe-se à “guerra sem fim” que o governo desencadeou.
Uma população que rejeita a guerra pode ser
mobilizada para lutar contra ela, assim como o povo de Minneapolis rejeitou os
maus-tratos brutais e os assassinatos de migrantes, e os aliados dos migrantes
rejeitaram a presença dos agentes do ICE.
Se os civis se opõem à guerra, isso significa
que as tropas podem recusar-se a obedecer a ordens ilegais. Reservistas e
soldados no activo são trabalhadores fardados. Eles reflectem as atitudes dos
seus pares civis – mas com as vidas e integridade física em risco.
Os soldados dos EUA oporão resistência à
guerra?
Durante a invasão usamericana do Vietname,
a resistência das tropas em travar combate contribuiu para a decisão de 1969 de
retirar gradualmente o contingente usamericano do Vietname e de passar a
depender de bombardeamentos. Também levou ao fim do recrutamento militar
obrigatório no início de 1973 e à decisão do Pentágono de criar, nas décadas
seguintes, um exército altamente tecnológico e sem recrutamento obrigatório.
Mesmo dentro dos militares não recrutados
[voluntários], alguns recusaram-se a lutar no Iraque e no Afeganistão, embora
em menor número do que no período do Vietname. Após muitos custos, mortes e
destruição, as tropas usamericanas foram forçadas a retirar-se das “guerras
intermináveis”.
Um livro de 2017 sobre a resistência dos
soldados (Turn the Guns Around: Mutinies, Soldier Revolts and Revolutions [Virando as Armas: Motins, Revoltas de Soldados e Revoluções) discute como os EUA não conseguem mobilizar um
exército de terra grande o suficiente para conquistar o Sul Global sem gerar
oposição interna e resistência entre as tropas. O livro dá exemplos de guerras
de agressão dos EUA que podem levar à rebelião dos soldados: uma que os EUA
iniciem contra “a Rússia, a China ou mesmo o Irã ou a [República Popular
Democrática da Coreia]”, ou se “o presidente ordenar que as tropas federais
reprimam greves de trabalhadores ou rebeliões em comunidades de minorias
étnicas dentro dos EUA”.
E esse é exactamente o cenário actual, de
Teerão a Minneapolis.
Se o regime MAGA ordenar a entrada de tropas
terrestres usamericanas no Irão, não há dúvidas de que os 93 milhões de
iranianos defenderão a sua civilização de 5.000 anos, uma resistência histórica
que os governantes dos EUA subestimam. Na intervenção militar em cidades
usamericanas, os cidadãos de Los Angeles, Chicago, Minneapolis e outras
cidades mostraram como a solidariedade da classe trabalhadora pode surpreender
os senhores da guerra de Washington.
É difícil imaginar a fúria popular caso o
regime MAGA tentasse reinstaurar o serviço militar obrigatório, o odiado
recrutamento. Jovens na Alemanha estão actualmente a protestar contra planos
semelhantes do imperialismo alemão.
Greve escolar na Alemanha contra o serviço
militar obrigatório, 5 de março de 2026. “A juventude reage” e “Os ricos querem
a guerra, a juventude quer um futuro” em cartazes feitos à mão.
Já existem indícios de que o Pentágono registrou baixas muito além dos sete soldados usamericanos oficialmente reconhecidos como mortos em combate. O facto de o principal hospital militar dos EUA em Landstuhl, na Alemanha, já ter cancelado os serviços de assistência ao parto (Military Times, 5 de março) demonstra que o Pentágono prevê um número muito maior de baixas usamericanas.
Organizações
de veteranos pacifistas, como a Veteranos pela Paz e outras, entraram em contacto
com militares no activo, oferecendo apoio a objectores de consciência. Um líder
do Centro sobre Consciência e Guerra afirmou que os seus telefones não param de
tocar desde o início da guerra EUA-Israel contra o Irão.
Um anúncio
feito há alguns meses por seis congressistas democratas, afirmando que as
tropas têm o dever de desobedecer a ordens ilegais, já se espalhou entre os
soldados. Quaisquer que sejam os motivos desses representantes eleitos, todos
veteranos das forças armadas ou da CIA, ninguém pode reverter essa situação.
Os
belicistas do MAGA podem descobrir que a sua agressão contra o Irão apenas
acelerou o declínio do imperialismo usamericano.













