Affichage des articles dont le libellé est Português. Afficher tous les articles
Affichage des articles dont le libellé est Português. Afficher tous les articles

22/06/2026

A 250.000 votos de distância: Abelardo vence Iván Cepeda na Colômbia

O resultado caiu como um golpe de malho: o candidato reacionário Abelardo de la Espriella derrotou no domingo o candidato de esquerda Iván Cepeda com menos de 1% de diferença (12.959.542 votos contra 12.708.712). Abaixo, uma primeira análise dos resultados. –FG, Tlaxcala

O panorama eleitoral: duas Colômbias frente a frente



Os bastiões conservadores do centro e dos Andes

Abelardo de la Espriella construiu a sua vitória sobre uma base territorial claramente identificada: os departamentos do centro do país, as regiões andinas e parte das planícies orientais. Antioquia constitui o coração do seu eleitorado com 2,18 milhões de votos (64,42%), mais de um milhão de vantagem sobre o seu adversário. O domínio ali é esmagador, tal como em Norte de Santander (76,56%) e Santander (64,58%).

O candidato vence também em todo o Eixo Cafeeiro (Caldas, Quindío, Risaralda), em Tolima, Huila, Boyacá e Cundinamarca. Estes departamentos, que concentram uma parte importante da população e do PIB nacional, forneceram as margens necessárias para a sua vitória na apuração nacional. Cundinamarca e Antioquia figuram entre os departamentos mais populosos, o que explica em parte a vitória final de De la Espriella apesar da sua derrota num maior número de departamentos.

Os bastiões progressistas: Caraíbas, Pacífico e Sul

Iván Cepeda, por seu lado, vence 19 departamentos (incluindo Bogotá) contra 13 para o seu adversário, mas frequentemente com populações menos densas. Os seus bastiões mais sólidos situam-se nas regiões periféricas:

  • O Pacífico colombiano: Chocó (81,37%), Cauca (75,64%), Nariño (76,72%), Valle del Cauca (60,82%).
  • O Sul amazónico: Putumayo (78,52%), Vaupés (80,86%), Amazonas (61,89%).
  • A região das Caraíbas: Bolívar (59,51%), Córdoba (58,28%), Atlántico (58,61%), La Guajira (60,45%), Sucre (59,19%), Magdalena (57,02%).
  • Bogotá D.C.: a capital, com os seus 2,23 milhões de votos (52,47%), constitui um importante bastião urbano para Cepeda.

O Valle del Cauca oferece um caso particularmente ilustrativo: Cepeda obtém ali 1,4 milhão de votos, ou seja, uma vantagem de 534.083 sufrágios sobre De la Espriella, confirmando que este departamento é um dos principais bastiões da esquerda na Colômbia.

O resultado eleitoral em estilo Botero

Análise sociológica das clivagens

Uma clivagem centro-periferia

O mapa eleitoral desenha uma clivagem geográfica maior entre:

  1. Os departamentos centrais e andinos: economicamente mais desenvolvidos, abrigando as elites tradicionais e os centros industriais (Medellín, Bucaramanga), votaram no candidato conservador.
  2. As periferias: regiões costeiras (Caraíbas, Pacífico) e zonas fronteiriças, historicamente marginalizadas, apoiaram massivamente o candidato da mudança.

Esta oposição não é nova na Colômbia: remete para a distinção histórica entre as regiões andinas "conservadoras" e as regiões costeiras "liberais", que o sistema político contemporâneo reativou.

A dimensão étnica e racializada

Os departamentos com elevada população afro-colombiana e indígena pronunciaram-se maioritariamente por Iván Cepeda. Isto é particularmente evidente em Chocó (81,37%), Cauca (75,64%) e Nariño (76,72%), regiões onde as comunidades negras e indígenas estão historicamente mobilizadas em torno de questões de justiça social e reconhecimento. A presença de Aida Quilcué, figura indígena, como companheira de chapa de Cepeda, sem dúvida reforçou este apoio.

Um voto urbano dividido

O voto das grandes cidades é mais contrastado do que parece. Bogotá apoia Cepeda, mas com uma margem relativamente modesta (52,47%). O Valle del Cauca vota em Cepeda, mas Medellín, a segunda cidade do país, é um bastião de De la Espriella. Os resultados confirmam uma fratura urbana, onde as grandes metrópoles das regiões andinas pendem para a direita enquanto as das periferias (Cali, Barranquilla, Cartagena) pendem para a esquerda.

Margens apertadas em departamentos-chave

Alguns departamentos foram muito disputados, refletindo uma sociedade colombiana profundamente dividida:

  • Caquetá: Cepeda vence por estreita margem com 48,97% contra 48,7%.
  • Guaviare: De la Espriella vence com 52,78%.
  • Vichada: Cepeda impõe-se com 54,43%.

Estes resultados testemunham a ausência de um bastião ideológico homogéneo nas zonas de colonização recente e nas regiões fronteiriças.

O voto no estrangeiro

Um ponto notável: De la Espriella vence amplamente entre os colombianos no estrangeiro (63,76%), com 382.000 votos contra 208.000 para Cepeda. Este voto da diáspora, frequentemente composta por classes médias e superiores expatriadas, contribuiu de forma significativa para a sua vitória.

Conclusão: uma Colômbia geograficamente fraturada

A segunda volta de 2026 confirma a geografia eleitoral da Colômbia como um espaço de tensões entre duas visões do país. O candidato conservador, De la Espriella, soube capitalizar os bastiões tradicionais do centro e dos Andes, enquanto Cepeda reuniu um arquipélago de periferias: Pacífico, Caraíbas, Amazónia e a capital.

Esta configuração recorda que a clivagem política colombiana continua fortemente territorializada, com cada região a exprimir expectativas sociais, económicas e identitárias distintas. A vitória apertada de De la Espriella (menos de 250.000 votos de diferença) significa que terá de governar um país cuja ampla metade geográfica não lhe concedeu a sua confiança.

 

28/04/2026

Sim, a China é um capitalismo de Estado — e daí?

Ao contrário do capitalismo ocidental, em que o capital controla o Estado, o modelo chinês se baseia em um Estado que controla o capital.

Antônio Dasmortes, 28-04-2026

Professor visitante na Universidade Normal do Sul da China e autor do livro A Odisseia Chinesa, de Mao Zedong a Xi Jinping, Bruno Guigue, ex-subprefeito francês demitido pela ministra do Interior em 2008 por um artigo denunciando o lobby pró-Israel, publicou recentemente uma defesa argumentada da China na qual se recusa a qualificá-la como “capitalismo de Estado”, preferindo vê-la como um socialismo em transição [NON, LA CHINE N’EST PAS UN “CAPITALISME D’ ETAT”: NÃO, A CHINA NÃO É UM “CAPITALISMO DE ESTADO”]. Sua demonstração é útil porque lembra que a expressão é frequentemente usada como um insulto: à direita, para denunciar o estatismo chinês; à esquerda, para denunciar seu capitalismo.

Mas o debate rapidamente se torna estéril quando se reduz a decidir qual palavra deve prevalecer. O capital existe na China — ninguém contesta isso. Ele se acumula, enriquece, explora, produz desigualdades. No Ocidente, o Estado intervém massivamente, mas o capital mantém a hegemonia. Na China, o capital intervém massivamente, mas o Estado mantém o comando. É essa inversão que muda tudo.

Nossa posição é diferente. Não buscamos vencer a batalha das definições. No fundo, pouco importa se falamos de socialismo com características chinesas, capitalismo de Estado ou sistema híbrido. O que importa é o que esse sistema faz às pessoas, concretamente, na escala de 1,4 bilhão de vidas. E, se olharmos os resultados em vez dos rótulos, uma conclusão se impõe: sim, a China é um capitalismo de Estado, no sentido de que o Estado conduz a acumulação do capital — e é exatamente isso que lhe permitiu oferecer à sua população a mais extraordinária melhoria das condições de vida da história recente.

A China não é um capitalismo liberal. Também não é um socialismo livre de mercado, de classes sociais, de exploração e de fortunas privadas. É algo mais desconfortável para categorias prontas: um capitalismo de Estado sob comando político comunista. O capital existe, se acumula, enriquece e, às vezes, explora duramente. Mas não é soberano. Não define sozinho a direção do país. Não tem a palavra final. É aí que reside a diferença essencial.

Há vinte anos, multiplicam-se artigos, relatórios e editoriais que usam a expressão como condenação automática. “Capitalismo de Estado”. As palavras soam fortes e, no imaginário ocidental, bastam para desqualificar um modelo inteiro. Subsídios, empresas públicas, planejamento, controle de capitais: dizem-nos que a China não joga pelas regras. Que venceria trapaceando aquilo que outros tentam conquistar na arena “virtuosa” do livre mercado.

Admitamos. Levemos a acusação a sério. Sim, a China contemporânea é um capitalismo de Estado. Mas é preciso definir o que isso significa — e, sobretudo, o que isso produz.

Se chamarmos de capitalismo de Estado um sistema em que o poder público possui os bancos, controla a alocação de crédito, detém grandes redes de infraestrutura, orienta o investimento industrial por planos quinquenais e mantém sob seu controle os setores estratégicos — então a China é um. Está claro. Mas, uma vez dito isso, surge a questão lógica: o que esse sistema produziu para o povo chinês, e em que escala histórica?

Em quarenta anos, oitocentos milhões de pessoas saíram da pobreza. Não da pobreza relativa, medida como porcentagem da renda média nos países ricos, mas da miséria absoluta, onde comer duas vezes ao dia não é garantido. O próprio Banco Mundial reconhece nisso a maior redução de pobreza da história humana. Se o capitalismo de Estado chinês é um crime, seria interessante saber qual outro sistema pode reivindicar tal resultado.

Dir-se-á que crescimento não é tudo. Então vejamos a vida cotidiana. Noventa por cento das famílias chinesas são proprietárias de suas casas. Nas grandes metrópoles ocidentais, esse número é um sonho distante para gerações condenadas ao aluguel permanente. Água encanada, eletricidade, acesso à saúde e à educação são hoje a norma até nas regiões mais remotas. O país se encheu de trens de alta velocidade, hospitais, universidades. O smog de Pequim diminuiu porque o Estado decidiu investir, em poucos anos, mais em energias renováveis do que todos os outros países juntos. Uma ditadura do capital de Estado, talvez; um desastre humano, claramente não.

O mais surpreendente no debate ocidental é que poucos querem olhar esse balanço de frente. Discute-se interminavelmente a natureza do regime, sua distância dos padrões liberais, a ausência de concorrência perfeita. Mas, concretamente, o que deveria ter sido feito? Entregar o desenvolvimento de um país de 1,4 bilhão de habitantes às mãos invisíveis do mercado global? Deixar investidores estrangeiros definirem prioridades industriais? Desmantelar os bancos públicos para que as taxas de juros se ajustem às exigências dos credores internacionais?

Todos os países que passaram do subdesenvolvimento ao status de potência o fizeram por formas, mais ou menos duras, de capitalismo de Estado. A Alemanha do fim do século XIX, a França dos Trinta Gloriosos, o Japão da era Meiji, a Coreia do Sul de Park Chung-hee, Singapura, Taiwan: todos protegeram suas indústrias emergentes, planearam a alocação de recursos, financiaram suas empresas líderes por meio de contratos públicos e controlaram seu sistema bancário. A diferença chinesa é de escala e continuidade — não de natureza. O que o Ocidente critica em Pequim, ele próprio já fez quando precisou. Simplesmente, ele esqueceu — ou finge ter esquecido.

Também é preciso observar o que o Ocidente faz, não apenas o que diz. A Lei de Redução da Inflação dos EUA distribui centenas de bilhões em subsídios às indústrias verdes instaladas no território. A Lei Chips financia com recursos públicos a relocalização da produção de semicondutores. A União Europeia, há muito guardiã do dogma da concorrência, flexibiliza suas regras para formar campeões continentais. Na França, o Estado continua sendo o acionista de referência da EDF, da SNCF e de parte do setor de defesa. O capitalismo de Estado está em toda parte. A questão é saber se ele melhora a vida das pessoas ou se beneficia apenas uma minoria.

E é aí que o caso chinês incomoda mais. No capitalismo de Estado ao estilo ocidental, as grandes iniciativas públicas são, na maioria das vezes, realizadas em benefício final dos acionistas privados: socializa-se os riscos, privatiza-se os lucros. Na China, a lógica é diferente. Os bancos públicos financiam pontes, linhas ferroviárias e hospitais que nunca gerarão lucro no curto prazo, mas cuja utilidade social é imensa. A propriedade final do solo permanece nas mãos do Estado, o que permitiu conter a especulação imobiliária que se observa em outros lugares. Os grandes empresários que cometem fraudes ou ameaçam a estabilidade do sistema vão para a prisão. Esse é um indicador bastante confiável de quem manda.

É aqui que Guigue aborda um ponto essencial, mas tira uma conclusão excessivamente defensiva. Ele explica que a China não é capitalista porque a oligarquia capitalista não detém o poder no país. Mas essa observação não basta para fazer o capitalismo desaparecer. Ela permite, ao contrário, precisar sua forma.

A China não é um capitalismo onde o Estado serve ao capital. É um capitalismo em que o Estado comanda o capital, o utiliza, o limita, o pune quando ele se torna perigoso e o orienta para objetivos que o mercado, sozinho, jamais perseguiria.

Essa distinção permite escapar da falsa escolha entre duas caricaturas: de um lado, a China como um paraíso socialista já realizado; de outro, a China como um simples capitalismo autoritário pintado de vermelho. A China é um país onde o capitalismo existe, mas onde a classe capitalista não governa. Um país onde o mercado não constitui o princípio supremo de organização social. Um país onde bilionários podem prosperar, mas sabem que não são o Estado. Eles enriquecem dentro de um marco definido pelo poder político, e não definindo esse marco em benefício próprio. A prova disso é que, quando um deles ameaça a estabilidade ou a legitimidade do sistema, o Estado o chama à ordem sem contemplações.

Resta a objeção moral, que muitas vezes vem da esquerda radical: esse capitalismo de Estado continua sendo capitalismo, com desigualdades, exploração, trabalhadores precários e bilionários. É verdade. A China conta com fortunas colossais e trabalhadores migrantes que vivem em condições duras. O socialismo com características chinesas não aboliu as classes sociais. Ele integrou o mercado mundial, utilizou a disciplina do trabalho industrial, aceitou a acumulação privada, permitiu a formação de uma burguesia nacional e produziu contradições sociais massivas.

Mas a objeção, para ser aceitável, precisa propor uma alternativa praticável. Que modelo de desenvolvimento não capitalista, na escala de 1,4 bilhão de seres humanos, em uma economia mundial estruturada por cadeias de valor transnacionais, provou sua viabilidade? O Gosplan soviético industrializou um país imenso, mas não resistiu às suas próprias rigidezes, nem à competição econômica e tecnológica de longo prazo. As experiências autogestionárias envolveram comunidades restritas. Os socialismos proclamados do Sul quase sempre foram estrangulados pela dependência externa, pelas sanções, pela fragilidade industrial ou pela guerra. Nenhuma dessas vias arrancou a pobreza de massa com a velocidade e a constância do “capitalismo de Estado” chinês.

Pode-se achar isso triste. Pode-se sonhar com um mundo em que a democracia direta dos produtores tivesse conduzido a China da fome à prosperidade sem nunca passar pela exploração. Mas, por enquanto, a realidade deu seu veredito. O capitalismo de Estado à chinesa, com seu coquetel de partido único, empresas públicas, planejamento, disciplina social e abertura controlada ao mercado mundial, arrancou da miséria a maior população do planeta em tempo recorde. Construiu infraestruturas que os EUA ou a Europa já não conseguem financiar. Tornou possível a única transição energética de grande escala atualmente em curso.

A palavra “capitalismo”, portanto, não basta para condenar a China. A palavra “socialismo” tampouco basta para compreendê-la. A questão decisiva é a da soberania política sobre a economia. No Ocidente, o Estado intervém massivamente, mas o capital conserva a hegemonia. Na China, o capital intervém massivamente, mas o Estado conserva o comando. Essa inversão muda tudo. Ela explica por que a mesma expressão — capitalismo de Estado — pode designar duas realidades opostas: aqui, um Estado capturado pelos interesses privados; lá, um Estado que captura, disciplina e reorienta a potência do capital.

Então, sim, a China é um capitalismo de Estado. Mas essa fórmula diz muito pouco enquanto não se explicita a correlação de forças que ela encobre. No Ocidente, o Estado salva o capital quando ele vacila, financia suas infraestruturas quando elas se tornam indispensáveis, absorve suas perdas quando elas ameaçam o sistema e depois lhe devolve os lucros. Na China, o Estado utiliza o capital, o enquadra, o corrige, o pune e o orienta para objetivos de potência coletiva.

Em um mundo cada vez mais instável, onde as cadeias de abastecimento se rompem e a competição por recursos se intensifica, o Estado chinês garante, além disso, uma resiliência econômica sem equivalente: a segurança do abastecimento de petróleo, matérias-primas e alimentos. Nenhum outro Estado faz isso nessa escala.

Se a fórmula “capitalismo de Estado” incomoda, é porque ela obriga a reconhecer que um Estado que domina o capital pode obter mais para sua população do que mercados entregues a si mesmos.

18/03/2026

Quanto mais o golpeiam, mais forte ele fica: o paradoxo do Irã que escapa à estupidez imperial

Tahar Lamri, 16/3/2026

Há uma categoria que falta no debate sobre a guerra em curso contra o Irã, e sua ausência explica por que aqueles que a combatem continuam errando tudo.

O Irã não é um movimento de partisans como a FLN argelina, que era uma frente sem dogma unificador - coalizão de nacionalistas, socialistas, comunistas, conservadores - mantida unida por um único objetivo: expulsar o colonizador. Não é o Vietnã do Norte, que era um estado numa parte do território com uma doutrina exportável - o comunismo - mas dependente de Moscou e Pequim e geograficamente limitado. Hamas, Hezbollah, os Houthis são milícias, entidades subnacionais que usam táticas de guerrilha porque não têm alternativa: sua assimetria é forçada, não escolhida.

O Irã é algo diferente e historicamente novo: representa o primeiro caso histórico de um estado que adota estruturalmente a doutrina da guerra de partisans como escolha estratégica soberana, combinando a legitimidade e os recursos de um estado com a lógica operacional do movimento de resistência. Tem um exército regular, mísseis balísticos, uma marinha, instituições reconhecidas, é um estado westfaliano em todos os aspectos. E no entanto, escolheu deliberadamente a doutrina da guerra de partisans como estratégia soberana: saturação com armas econômicas, desgaste, aceitação consciente das perdas territoriais para tornar o custo insustentável para o adversário. Não porque não pudesse fazer de outra forma, mas porque avaliou que era a estratégia ótima contra uma superioridade convencional esmagadora.

Essa escolha tem uma consequência econômica devastadora para quem o combate. Um drone Shahed custa vinte mil dólares. Um interceptador THAAD custa 12,7 milhões de dólares. O Irã lançou na primeira semana de guerra quinhentos mísseis balísticos e quase dois mil drones. A matemática é impiedosa: a guerra pobre faz a guerra rica pagar um custo insustentável: não no campo de batalha, mas nas cadeias de suprimentos, nos orçamentos, nos estoques de interceptadores que se esgotam mais rápido do que podem ser produzidos.

Mas a novidade mais profunda não é militar: é estrutural. O Irã institucionalizou uma contradição que todos os movimentos de libertação tiveram que escolher: ser estado ou ser revolução. A Argélia depois de 1962 escolheu ser estado e deixou de ser revolução. Cuba tentou ambas e falhou. O Irã não: construiu deliberadamente uma dualidade permanente. O exército regular é o estado westfaliano. Os Pasdaran - os Guardas da Revolução - são a revolução permanente, com suas redes regionais, suas ramificações no Iêmen, Iraque, Líbano, todas unidas não por uma ideologia laica mas por uma fé: o islamismo xiita como identidade, memória, trauma fundador. Não se escolhe ser xiita como se escolhe ser comunista. É família, luto, corpo. Karbala não é um evento histórico: é um paradigma cosmológico que se repete.

O resultado é um internacionalismo religioso que não é uma aliança entre estados, não é uma Internacional leninista, mas uma rede transnacional mantida unida por uma gramática existencial comum que não precisa de um centro de comando explícito para se coordenar.

E então EUA e Israel fizeram o maior presente: criaram o panteão. Soleimani, Nasrallah, Khamenei: cada eliminação direcionada que pensavam resolver um problema estratégico produziu um mártir que multiplica a coesão da rede. Na teologia xiita, a morte do líder justo pelas mãos do opressor não é uma derrota: é a confirmação de sua justiça. É a estrutura narrativa de Karbala. Um general vivo pode errar, pode decepcionar, pode envelhecer. Um mártir é eterno e perfeito. Reescreveram, com seus mísseis, o roteiro que o outro lado esperava.

A República Islâmica do Irã tem como ideal a felicidade humana em toda a sociedade e considera que a conquista da independência, da liberdade e do império da justiça e da verdade é um direito de todos os povos do mundo. Consequentemente, ao mesmo tempo em que se abstém escrupulosamente de qualquer forma de ingerência nos assuntos internos de outras nações, apoia as lutas justas dos mustadhafoun (oprimidos) contra os mustakbirun (opressores/arrogantes) em todos os cantos do mundo.

Constituição da República Islâmica do Irã, Capítulo 10, Artigo 154

Mas há um último erro, talvez o mais grave. Israel atingiu os bancos do Hezbollah (o Instituto Al Qardh al-Hassan) e o maior banco iraniano (Bank Sepah). No mundo xiita khomeinista, o banco não é uma instituição financeira: é a infraestrutura material da teologia. É o mecanismo através do qual se distribui o zakat, se financiam as obras de caridade, se mantém o pacto com os mustazaafin, os mais fracos, os oprimidos, os condenados da terra de Fanon. Khomeini construiu o consenso da revolução sobre esta rede capilar de solidariedade material. Atingi-la não enfraquece a narrativa da resistência: a confirma. Demonstra, na vida cotidiana de milhões de pobres, quem são os inimigos dos fracos. É a melhor propaganda possível, realizada pelas próprias bombas israelenses.

Juntando tudo: está-se combatendo com a lógica da guerra convencional - decapitar a estrutura, cortar o financiamento, destruir infraestruturas - uma forma política que não é uma estrutura convencional. É uma rede simbólica, social, militar e religiosa deliberadamente construída para ser indestrutível precisamente através da destruição. Cada bomba que cai fortalece o narrativa. Cada mártir consolida o panteão. Cada banco atingido mostra aos pobres de que lado está o opressor.

E se o estado iraniano for desmembrado ou derrotado, os Pasdaran sem estado - treinados, armados, formados numa cultura do martírio que não depende de nenhuma instituição para sobreviver - espalhar-se-iam por uma região que vai do Líbano ao Paquistão, do Azerbaijão ao Bahrein, com ramificações em três continentes. Não mais contidos por nenhuma estrutura estatal, sem nada a perder, com mártires poderosíssimos e uma narrativa de resistência mais forte do que antes. Um estado iraniano hostil é dissuadível. Um enxame de Pasdaran sem estado não o é.

E enquanto tudo isso acontece, três sinais dizem o quão profundamente esta guerra está escapando ao controle narrativo de quem a desencadeou.

A Turquia esperava milhões de refugiados iranianos fugindo das bombas. Viu, em vez disso, milhares de iranianos cruzando a fronteira na direção oposta, para regressar a defender a pátria. Não necessariamente o regime: o Irã. A civilização persa de quatro milênios que não se deixa reduzir à equação “regime igual a povo”. O nacionalismo ferido produz o que anos de oposição política não conseguem construir.

E depois há Gaza. O Irã é atacado depois que o mundo assistiu durante meses ao genocídio palestino transmitido ao vivo, documentado, negado pelas chancelarias ocidentais. Para os pobres da terra, para o Sul global, para qualquer um que se sinta do lado dos humilhados, a sequência é legível e brutal: quem defendia os palestinos é agora bombardeado pelos mesmos que armavam quem os massacrava. O Irã tornou-se, no imaginário global dos condenados, algo que vai muito além da política regional ou da teologia xiita: é a promessa de que se pode resistir, é a vingança simbólica de quem nunca teve justiça. Essa solidariedade não tem fronteiras confessionais nem geográficas.

Finalmente, há a China. Seus estrategistas não estão olhando para a guerra: estão conduzindo a mais detalhada avaliação possível das capacidades reais euamericanas em condições de conflito de alta intensidade. Cada interceptador THAAD disparado, cada Tomahawk lançado, cada dia de guerra é um dado sobre a resistência logística e industrial do adversário que terão que enfrentar, um dia, no Pacífico. Veem os estoques se esgotarem, os tempos de produção não acompanharem o consumo, a cadeia logística sob pressão. Estão tomando notas. E não precisam lutar para ganhar esta guerra: basta-lhes esperar que a EUAmérica fique sem munições.

Esta guerra não pode ser vencida. Só pode ser alargada. E o mundo sabe disso.

17/03/2026

O ataque ao Irão provoca dissensão nas Forças Aramadas dos EUA. O que virá a seguir?



John Catalinottoworkers world, 13/3/2026
Traduzido por Mudar de vida

A batalha que começou com o ataque não provocado da máquina de guerra EUA-Israel contra o Irão, em 28 de fevereiro, expandiu-se nos seus primeiros 11 dias para uma conflagração regional e está a avançar a uma velocidade sem controlo rumo a uma guerra mundial.

A organização Veteranos pela Paz oferece assistência a soldados dissidentes

Activistas pacifistas e anti-imperialistas nos Estados Unidos — nas entranhas do monstro — têm o dever especial de fazer tudo o que estiver ao seu alcance para deter esta guerra. E há uma área em que eles estão na melhor posição para agir: entrar em contacto com membros das forças armadas usamericanas.

O primeiro ponto a deixar claro ao planear essa luta é que a classe dominante super-rica dos Estados Unidos e os regimes reaccionários racistas que comandam os estados opressores, tanto os EUA como Israel, são os criminosos responsáveis ​​pelas consequências terríveis da guerra. O movimento pacifista deve expor esses crimes e procurar desmantelar a máquina de guerra desses criminosos.

Apoio popular mínimo à guerra nos EUA

Comparada com as últimas seis longas guerras de agressão dos EUA – Coreia, Vietname, Iraque (1991), Jugoslávia, Afeganistão e Iraque (2003) – esta potencial “guerra sem fim” contra o Irão é a que enfrenta maior oposição interna. A guerra contra o Irão começou com bombas e foguetes americanos que mataram mais de 150 estudantes na cidade de Minab, e com o assassinato, por Israel, do líder político e religioso supremo do Irão, o aiatolá Ali Hosseini Khamenei, em 28 de fevereiro.

Antes de desencadear a conflagração, o regime MAGA não fez nenhum esforço para obter apoio para a agressão, nem entre o povo, nem no Congresso, nem buscando aliados internacionais além dos criminosos genocidas que administram o estado colonialista israelita. O regime contava com as grandes mentiras de décadas que demonizavam o Irão.

Desde o massacre inicial em Minab, que lembra o incêndio da aldeia de My Lai no Vietname em 1968, cada bajulador do governo MAGA e o impopular presidente dos EUA têm dado explicações contraditórias sobre como a guerra começou, quanto tempo durará, se haverá envio de tropas terrestres e qual o objectivo. As suas mentiras contraditórias só fizeram diminuir a sua credibilidade.

Mesmo antes de serem relatadas extensas baixas entre as tropas usamericanas, mesmo antes de o custo militar diário de mil milhões de dólares desta “guerra de opção” EUA-Israel se tornar evidente (csis.org), mesmo antes de a guerra desencadear um desastre económico mundial, a maioria da população dos EUA opõe-se à “guerra sem fim” que o governo desencadeou.

Uma população que rejeita a guerra pode ser mobilizada para lutar contra ela, assim como o povo de Minneapolis rejeitou os maus-tratos brutais e os assassinatos de migrantes, e os aliados dos migrantes rejeitaram a presença dos agentes do ICE.

Se os civis se opõem à guerra, isso significa que as tropas podem recusar-se a obedecer a ordens ilegais. Reservistas e soldados no activo são trabalhadores fardados. Eles reflectem as atitudes dos seus pares civis – mas com as vidas e integridade física em risco.

Os soldados dos EUA oporão resistência à guerra?

Durante a invasão usamericana do Vietname, a resistência das tropas em travar combate contribuiu para a decisão de 1969 de retirar gradualmente o contingente usamericano do Vietname e de passar a depender de bombardeamentos. Também levou ao fim do recrutamento militar obrigatório no início de 1973 e à decisão do Pentágono de criar, nas décadas seguintes, um exército altamente tecnológico e sem recrutamento obrigatório.

Mesmo dentro dos militares não recrutados [voluntários], alguns recusaram-se a lutar no Iraque e no Afeganistão, embora em menor número do que no período do Vietname. Após muitos custos, mortes e destruição, as tropas usamericanas foram forçadas a retirar-se das “guerras intermináveis”.

Um livro de 2017 sobre a resistência dos soldados (Turn the Guns Around: Mutinies, Soldier Revolts and Revolutions [Virando as Armas: Motins, Revoltas de Soldados e Revoluções)  discute como os EUA não conseguem mobilizar um exército de terra grande o suficiente para conquistar o Sul Global sem gerar oposição interna e resistência entre as tropas. O livro dá exemplos de guerras de agressão dos EUA que podem levar à rebelião dos soldados: uma que os EUA iniciem contra “a Rússia, a China ou mesmo o Irã ou a [República Popular Democrática da Coreia]”, ou se “o presidente ordenar que as tropas federais reprimam greves de trabalhadores ou rebeliões em comunidades de minorias étnicas dentro dos EUA”.

E esse é exactamente o cenário actual, de Teerão a Minneapolis.

Se o regime MAGA ordenar a entrada de tropas terrestres usamericanas no Irão, não há dúvidas de que os 93 milhões de iranianos defenderão a sua civilização de 5.000 anos, uma resistência histórica que os governantes dos EUA subestimam. Na intervenção militar em cidades usamericanas, os cidadãos de Los Angeles, Chicago, Minneapolis e outras cidades mostraram como a solidariedade da classe trabalhadora pode surpreender os senhores da guerra de Washington.

É difícil imaginar a fúria popular caso o regime MAGA tentasse reinstaurar o serviço militar obrigatório, o odiado recrutamento. Jovens na Alemanha estão actualmente a protestar contra planos semelhantes do imperialismo alemão.

Greve escolar na Alemanha contra o serviço militar obrigatório, 5 de março de 2026. “A juventude reage” e “Os ricos querem a guerra, a juventude quer um futuro” em cartazes feitos à mão.

Já existem indícios de que o Pentágono registrou baixas muito além dos sete soldados usamericanos oficialmente reconhecidos como mortos em combate. O facto de o principal hospital militar dos EUA em Landstuhl, na Alemanha, já ter cancelado os serviços de assistência ao parto (Military Times5 de março) demonstra que o Pentágono prevê um número muito maior de baixas usamericanas.

Organizações de veteranos pacifistas, como a Veteranos pela Paz e outras, entraram em contacto com militares no activo, oferecendo apoio a objectores de consciência. Um líder do Centro sobre Consciência e Guerra afirmou que os seus telefones não param de tocar desde o início da guerra EUA-Israel contra o Irão.

Um anúncio feito há alguns meses por seis congressistas democratas, afirmando que as tropas têm o dever de desobedecer a ordens ilegais, já se espalhou entre os soldados. Quaisquer que sejam os motivos desses representantes eleitos, todos veteranos das forças armadas ou da CIA, ninguém pode reverter essa situação.

Os belicistas do MAGA podem descobrir que a sua agressão contra o Irão apenas acelerou o declínio do imperialismo usamericano.

16/01/2026

UPAL: Gaza depois do fogo after the fire después del fuego après le feu غزة بعد النار