Les USA affirment que Nicolás Maduro a soutenu des groupes “ narcoterroristes”. L’un d’entre eux a été créé par Washington
José Olivares, The Intercept/Drop Site News, 28 mai 2026
Traduit par Tlaxcala
Español - English - Português
Les USA affirment que Nicolás Maduro a soutenu des groupes “ narcoterroristes”. L’un d’entre eux a été créé par Washington
José Olivares, The Intercept/Drop Site News, 28 mai 2026
Traduit par Tlaxcala
Español - English - Português
Ao contrário do capitalismo ocidental, em que o capital controla o Estado, o modelo chinês se baseia em um Estado que controla o capital.
Professor visitante na Universidade Normal do Sul da China e autor do livro A Odisseia Chinesa, de Mao Zedong a Xi Jinping, Bruno Guigue, ex-subprefeito francês demitido pela ministra do Interior em 2008 por um artigo denunciando o lobby pró-Israel, publicou recentemente uma defesa argumentada da China na qual se recusa a qualificá-la como “capitalismo de Estado”, preferindo vê-la como um socialismo em transição [NON, LA CHINE N’EST PAS UN “CAPITALISME D’ ETAT”: NÃO, A CHINA NÃO É UM “CAPITALISMO DE ESTADO”]. Sua demonstração é útil porque lembra que a expressão é frequentemente usada como um insulto: à direita, para denunciar o estatismo chinês; à esquerda, para denunciar seu capitalismo.
Mas o debate rapidamente se torna estéril quando se reduz a decidir qual palavra deve prevalecer. O capital existe na China — ninguém contesta isso. Ele se acumula, enriquece, explora, produz desigualdades. No Ocidente, o Estado intervém massivamente, mas o capital mantém a hegemonia. Na China, o capital intervém massivamente, mas o Estado mantém o comando. É essa inversão que muda tudo.
Nossa posição é diferente. Não
buscamos vencer a batalha das definições. No fundo, pouco importa se falamos de
socialismo com características chinesas, capitalismo de Estado ou sistema
híbrido. O que importa é o que esse sistema faz às pessoas, concretamente, na
escala de 1,4 bilhão de vidas. E, se olharmos os resultados em vez dos rótulos,
uma conclusão se impõe: sim, a China é um capitalismo de Estado, no sentido de
que o Estado conduz a acumulação do capital — e é exatamente isso que lhe
permitiu oferecer à sua população a mais extraordinária melhoria das condições
de vida da história recente.
A China não é um capitalismo
liberal. Também não é um socialismo livre de mercado, de classes sociais, de
exploração e de fortunas privadas. É algo mais desconfortável para categorias
prontas: um capitalismo de Estado sob comando político comunista. O capital
existe, se acumula, enriquece e, às vezes, explora duramente. Mas não é
soberano. Não define sozinho a direção do país. Não tem a palavra final. É aí
que reside a diferença essencial.
Há vinte anos, multiplicam-se
artigos, relatórios e editoriais que usam a expressão como condenação
automática. “Capitalismo de Estado”. As palavras soam fortes e, no imaginário
ocidental, bastam para desqualificar um modelo inteiro. Subsídios, empresas públicas,
planejamento, controle de capitais: dizem-nos que a China não joga pelas
regras. Que venceria trapaceando aquilo que outros tentam conquistar na arena
“virtuosa” do livre mercado.
Admitamos. Levemos a acusação a
sério. Sim, a China contemporânea é um capitalismo de Estado. Mas é preciso
definir o que isso significa — e, sobretudo, o que isso produz.
Se chamarmos de capitalismo de
Estado um sistema em que o poder público possui os bancos, controla a alocação
de crédito, detém grandes redes de infraestrutura, orienta o investimento
industrial por planos quinquenais e mantém sob seu controle os setores
estratégicos — então a China é um. Está claro. Mas, uma vez dito isso, surge a
questão lógica: o que esse sistema produziu para o povo chinês, e em que escala
histórica?
Em quarenta anos, oitocentos milhões
de pessoas saíram da pobreza. Não da pobreza relativa, medida como porcentagem
da renda média nos países ricos, mas da miséria absoluta, onde comer duas vezes
ao dia não é garantido. O próprio Banco Mundial reconhece nisso a maior redução
de pobreza da história humana. Se o capitalismo de Estado chinês é um crime,
seria interessante saber qual outro sistema pode reivindicar tal resultado.
Dir-se-á que crescimento não é tudo.
Então vejamos a vida cotidiana. Noventa por cento das famílias chinesas são
proprietárias de suas casas. Nas grandes metrópoles ocidentais, esse número é
um sonho distante para gerações condenadas ao aluguel permanente. Água
encanada, eletricidade, acesso à saúde e à educação são hoje a norma até nas
regiões mais remotas. O país se encheu de trens de alta velocidade, hospitais,
universidades. O smog de Pequim diminuiu porque o Estado decidiu investir, em
poucos anos, mais em energias renováveis do que todos os outros países juntos.
Uma ditadura do capital de Estado, talvez; um desastre humano, claramente não.
O mais surpreendente no debate
ocidental é que poucos querem olhar esse balanço de frente. Discute-se
interminavelmente a natureza do regime, sua distância dos padrões liberais, a
ausência de concorrência perfeita. Mas, concretamente, o que deveria ter sido
feito? Entregar o desenvolvimento de um país de 1,4 bilhão de habitantes às
mãos invisíveis do mercado global? Deixar investidores estrangeiros definirem
prioridades industriais? Desmantelar os bancos públicos para que as taxas de
juros se ajustem às exigências dos credores internacionais?
Todos os países que passaram do
subdesenvolvimento ao status de potência o fizeram por formas, mais ou menos
duras, de capitalismo de Estado. A Alemanha do fim do século XIX, a França dos
Trinta Gloriosos, o Japão da era Meiji, a Coreia do Sul de Park Chung-hee,
Singapura, Taiwan: todos protegeram suas indústrias emergentes, planearam a
alocação de recursos, financiaram suas empresas líderes por meio de contratos
públicos e controlaram seu sistema bancário. A diferença chinesa é de escala e
continuidade — não de natureza. O que o Ocidente critica em Pequim, ele próprio
já fez quando precisou. Simplesmente, ele esqueceu — ou finge ter esquecido.
Também é
preciso observar o que o Ocidente faz, não apenas o que diz. A Lei de Redução
da Inflação dos EUA distribui centenas de bilhões em subsídios às indústrias
verdes instaladas no território. A Lei Chips financia com recursos públicos a
relocalização da produção de semicondutores. A União Europeia, há muito guardiã
do dogma da concorrência, flexibiliza suas regras para formar campeões
continentais. Na França, o Estado continua sendo o acionista de referência da
EDF, da SNCF e de parte do setor de defesa. O capitalismo de Estado está em
toda parte. A questão é saber se ele melhora a vida das pessoas ou se beneficia
apenas uma minoria.
E é aí que
o caso chinês incomoda mais. No capitalismo de Estado ao estilo ocidental, as
grandes iniciativas públicas são, na maioria das vezes, realizadas em benefício
final dos acionistas privados: socializa-se os riscos, privatiza-se os lucros.
Na China, a lógica é diferente. Os bancos públicos financiam pontes, linhas
ferroviárias e hospitais que nunca gerarão lucro no curto prazo, mas cuja
utilidade social é imensa. A propriedade final do solo permanece nas mãos do
Estado, o que permitiu conter a especulação imobiliária que se observa em outros
lugares. Os grandes empresários que cometem fraudes ou ameaçam a estabilidade
do sistema vão para a prisão. Esse é um indicador bastante confiável de quem
manda.
É aqui que Guigue aborda um ponto
essencial, mas tira uma conclusão excessivamente defensiva. Ele explica que a
China não é capitalista porque a oligarquia capitalista não detém o poder no
país. Mas essa observação não basta para fazer o capitalismo desaparecer. Ela
permite, ao contrário, precisar sua forma.
A China não é um capitalismo onde o
Estado serve ao capital. É um capitalismo em que o Estado comanda o capital, o
utiliza, o limita, o pune quando ele se torna perigoso e o orienta para
objetivos que o mercado, sozinho, jamais perseguiria.
Essa distinção permite escapar da
falsa escolha entre duas caricaturas: de um lado, a China como um paraíso
socialista já realizado; de outro, a China como um simples capitalismo
autoritário pintado de vermelho. A China é um país onde o capitalismo existe,
mas onde a classe capitalista não governa. Um país onde o mercado não constitui
o princípio supremo de organização social. Um país onde bilionários podem
prosperar, mas sabem que não são o Estado. Eles enriquecem dentro de um marco
definido pelo poder político, e não definindo esse marco em benefício próprio.
A prova disso é que, quando um deles ameaça a estabilidade ou a legitimidade do
sistema, o Estado o chama à ordem sem contemplações.
Resta a objeção moral, que muitas
vezes vem da esquerda radical: esse capitalismo de Estado continua sendo
capitalismo, com desigualdades, exploração, trabalhadores precários e
bilionários. É verdade. A China conta com fortunas colossais e trabalhadores migrantes
que vivem em condições duras. O socialismo com características chinesas não
aboliu as classes sociais. Ele integrou o mercado mundial, utilizou a
disciplina do trabalho industrial, aceitou a acumulação privada, permitiu a
formação de uma burguesia nacional e produziu contradições sociais massivas.
Mas a objeção, para ser aceitável,
precisa propor uma alternativa praticável. Que modelo de desenvolvimento não
capitalista, na escala de 1,4 bilhão de seres humanos, em uma economia mundial
estruturada por cadeias de valor transnacionais, provou sua viabilidade? O
Gosplan soviético industrializou um país imenso, mas não resistiu às suas
próprias rigidezes, nem à competição econômica e tecnológica de longo prazo. As
experiências autogestionárias envolveram comunidades restritas. Os socialismos
proclamados do Sul quase sempre foram estrangulados pela dependência externa,
pelas sanções, pela fragilidade industrial ou pela guerra. Nenhuma dessas vias
arrancou a pobreza de massa com a velocidade e a constância do “capitalismo de
Estado” chinês.
Pode-se achar isso triste. Pode-se
sonhar com um mundo em que a democracia direta dos produtores tivesse conduzido
a China da fome à prosperidade sem nunca passar pela exploração. Mas, por
enquanto, a realidade deu seu veredito. O capitalismo de Estado à chinesa, com
seu coquetel de partido único, empresas públicas, planejamento, disciplina
social e abertura controlada ao mercado mundial, arrancou da miséria a maior
população do planeta em tempo recorde. Construiu infraestruturas que os EUA ou
a Europa já não conseguem financiar. Tornou possível a única transição
energética de grande escala atualmente em curso.
A palavra “capitalismo”, portanto,
não basta para condenar a China. A palavra “socialismo” tampouco basta para
compreendê-la. A questão decisiva é a da soberania política sobre a economia.
No Ocidente, o Estado intervém massivamente, mas o capital conserva a
hegemonia. Na China, o capital intervém massivamente, mas o Estado conserva o
comando. Essa inversão muda tudo. Ela explica por que a mesma expressão —
capitalismo de Estado — pode designar duas realidades opostas: aqui, um Estado
capturado pelos interesses privados; lá, um Estado que captura, disciplina e
reorienta a potência do capital.
Então, sim, a China é um capitalismo
de Estado. Mas essa fórmula diz muito pouco enquanto não se explicita a
correlação de forças que ela encobre. No Ocidente, o Estado salva o capital
quando ele vacila, financia suas infraestruturas quando elas se tornam
indispensáveis, absorve suas perdas quando elas ameaçam o sistema e depois lhe
devolve os lucros. Na China, o Estado utiliza o capital, o enquadra, o corrige,
o pune e o orienta para objetivos de potência coletiva.
Em um mundo cada vez mais instável,
onde as cadeias de abastecimento se rompem e a competição por recursos se
intensifica, o Estado chinês garante, além disso, uma resiliência econômica sem
equivalente: a segurança do abastecimento de petróleo, matérias-primas e
alimentos. Nenhum outro Estado faz isso nessa escala.
Se a
fórmula “capitalismo de Estado” incomoda, é porque ela obriga a reconhecer que
um Estado que domina o capital pode obter mais para sua população do que
mercados entregues a si mesmos.
Tahar Lamri, 16/3/2026
Há
uma categoria que falta no debate sobre a guerra em curso contra o Irã, e sua
ausência explica por que aqueles que a combatem continuam errando tudo.
O Irã
não é um movimento de partisans como a FLN argelina, que era uma frente sem
dogma unificador - coalizão de nacionalistas, socialistas, comunistas,
conservadores - mantida unida por um único objetivo: expulsar o colonizador.
Não é o Vietnã do Norte, que era um estado numa parte do território com uma
doutrina exportável - o comunismo - mas dependente de Moscou e Pequim e
geograficamente limitado. Hamas, Hezbollah, os Houthis são milícias, entidades
subnacionais que usam táticas de guerrilha porque não têm alternativa: sua
assimetria é forçada, não escolhida.
O Irã
é algo diferente e historicamente novo: representa o primeiro caso histórico de
um estado que adota estruturalmente a doutrina da guerra de partisans como
escolha estratégica soberana, combinando a legitimidade e os recursos de um
estado com a lógica operacional do movimento de resistência. Tem um exército
regular, mísseis balísticos, uma marinha, instituições reconhecidas, é um
estado westfaliano em todos os aspectos. E no entanto, escolheu deliberadamente
a doutrina da guerra de partisans como estratégia soberana: saturação com armas
econômicas, desgaste, aceitação consciente das perdas territoriais para tornar
o custo insustentável para o adversário. Não porque não pudesse fazer de outra
forma, mas porque avaliou que era a estratégia ótima contra uma superioridade
convencional esmagadora.
Essa
escolha tem uma consequência econômica devastadora para quem o combate. Um
drone Shahed custa vinte mil dólares. Um interceptador THAAD custa 12,7 milhões
de dólares. O Irã lançou na primeira semana de guerra quinhentos mísseis
balísticos e quase dois mil drones. A matemática é impiedosa: a guerra pobre
faz a guerra rica pagar um custo insustentável: não no campo de batalha, mas
nas cadeias de suprimentos, nos orçamentos, nos estoques de interceptadores que
se esgotam mais rápido do que podem ser produzidos.
Mas a
novidade mais profunda não é militar: é estrutural. O Irã institucionalizou uma
contradição que todos os movimentos de libertação tiveram que escolher: ser
estado ou ser revolução. A Argélia depois de 1962 escolheu ser estado e deixou
de ser revolução. Cuba tentou ambas e falhou. O Irã não: construiu
deliberadamente uma dualidade permanente. O exército regular é o estado
westfaliano. Os Pasdaran - os Guardas da Revolução - são a revolução
permanente, com suas redes regionais, suas ramificações no Iêmen, Iraque,
Líbano, todas unidas não por uma ideologia laica mas por uma fé: o islamismo
xiita como identidade, memória, trauma fundador. Não se escolhe ser xiita como
se escolhe ser comunista. É família, luto, corpo. Karbala não é um evento
histórico: é um paradigma cosmológico que se repete.
O
resultado é um internacionalismo religioso que não é uma aliança entre estados,
não é uma Internacional leninista, mas uma rede transnacional mantida unida por
uma gramática existencial comum que não precisa de um centro de comando
explícito para se coordenar.
E
então EUA e Israel fizeram o maior presente: criaram o panteão. Soleimani,
Nasrallah, Khamenei: cada eliminação direcionada que pensavam resolver um
problema estratégico produziu um mártir que multiplica a coesão da rede. Na
teologia xiita, a morte do líder justo pelas mãos do opressor não é uma
derrota: é a confirmação de sua justiça. É a estrutura narrativa de Karbala. Um
general vivo pode errar, pode decepcionar, pode envelhecer. Um mártir é eterno
e perfeito. Reescreveram, com seus mísseis, o roteiro que o outro lado
esperava.
A República Islâmica do Irã tem como ideal a felicidade humana em toda a sociedade e considera que a conquista da independência, da liberdade e do império da justiça e da verdade é um direito de todos os povos do mundo. Consequentemente, ao mesmo tempo em que se abstém escrupulosamente de qualquer forma de ingerência nos assuntos internos de outras nações, apoia as lutas justas dos mustadhafoun (oprimidos) contra os mustakbirun (opressores/arrogantes) em todos os cantos do mundo.
Constituição da República Islâmica do Irã, Capítulo 10, Artigo 154
Mas
há um último erro, talvez o mais grave. Israel atingiu os bancos do Hezbollah
(o Instituto Al Qardh al-Hassan) e o maior banco iraniano (Bank Sepah). No
mundo xiita khomeinista, o banco não é uma instituição financeira: é a
infraestrutura material da teologia. É o mecanismo através do qual se distribui
o zakat, se financiam as obras de caridade, se mantém o pacto com os
mustazaafin, os mais fracos, os oprimidos, os condenados da terra de Fanon.
Khomeini construiu o consenso da revolução sobre esta rede capilar de
solidariedade material. Atingi-la não enfraquece a narrativa da resistência: a
confirma. Demonstra, na vida cotidiana de milhões de pobres, quem são os
inimigos dos fracos. É a melhor propaganda possível, realizada pelas próprias
bombas israelenses.
Juntando
tudo: está-se combatendo com a lógica da guerra convencional - decapitar a
estrutura, cortar o financiamento, destruir infraestruturas - uma forma
política que não é uma estrutura convencional. É uma rede simbólica, social,
militar e religiosa deliberadamente construída para ser indestrutível
precisamente através da destruição. Cada bomba que cai fortalece o narrativa.
Cada mártir consolida o panteão. Cada banco atingido mostra aos pobres de que
lado está o opressor.
E se
o estado iraniano for desmembrado ou derrotado, os Pasdaran sem estado - treinados,
armados, formados numa cultura do martírio que não depende de nenhuma
instituição para sobreviver - espalhar-se-iam por uma região que vai do Líbano
ao Paquistão, do Azerbaijão ao Bahrein, com ramificações em três continentes.
Não mais contidos por nenhuma estrutura estatal, sem nada a perder, com
mártires poderosíssimos e uma narrativa de resistência mais forte do que antes.
Um estado iraniano hostil é dissuadível. Um enxame de Pasdaran sem estado não o
é.
E
enquanto tudo isso acontece, três sinais dizem o quão profundamente esta guerra
está escapando ao controle narrativo de quem a desencadeou.
A
Turquia esperava milhões de refugiados iranianos fugindo das bombas. Viu, em
vez disso, milhares de iranianos cruzando a fronteira na direção oposta, para
regressar a defender a pátria. Não necessariamente o regime: o Irã. A
civilização persa de quatro milênios que não se deixa reduzir à equação “regime
igual a povo”. O nacionalismo ferido produz o que anos de oposição política não
conseguem construir.
E
depois há Gaza. O Irã é atacado depois que o mundo assistiu durante meses ao
genocídio palestino transmitido ao vivo, documentado, negado pelas chancelarias
ocidentais. Para os pobres da terra, para o Sul global, para qualquer um que se
sinta do lado dos humilhados, a sequência é legível e brutal: quem defendia os
palestinos é agora bombardeado pelos mesmos que armavam quem os massacrava. O
Irã tornou-se, no imaginário global dos condenados, algo que vai muito além da
política regional ou da teologia xiita: é a promessa de que se pode resistir, é
a vingança simbólica de quem nunca teve justiça. Essa solidariedade não tem
fronteiras confessionais nem geográficas.
Finalmente,
há a China. Seus estrategistas não estão olhando para a guerra: estão
conduzindo a mais detalhada avaliação possível das capacidades reais euamericanas
em condições de conflito de alta intensidade. Cada interceptador THAAD
disparado, cada Tomahawk lançado, cada dia de guerra é um dado sobre a
resistência logística e industrial do adversário que terão que enfrentar, um
dia, no Pacífico. Veem os estoques se esgotarem, os tempos de produção não
acompanharem o consumo, a cadeia logística sob pressão. Estão tomando notas. E
não precisam lutar para ganhar esta guerra: basta-lhes esperar que a EUAmérica
fique sem munições.
Esta
guerra não pode ser vencida. Só pode ser alargada. E o mundo sabe disso.
John
Catalinotto, workers world, 13/3/2026
Traduzido
por Mudar de vida
A batalha
que começou com o ataque não provocado da máquina de guerra EUA-Israel contra o
Irão, em 28 de fevereiro, expandiu-se nos seus primeiros 11 dias para uma
conflagração regional e está a avançar a uma velocidade sem controlo rumo a uma
guerra mundial.
A organização Veteranos pela Paz oferece
assistência a soldados dissidentes
Activistas pacifistas e anti-imperialistas nos
Estados Unidos — nas entranhas do monstro — têm o dever especial de fazer tudo
o que estiver ao seu alcance para deter esta guerra. E há uma área em que eles
estão na melhor posição para agir: entrar em contacto com membros das forças
armadas usamericanas.
O primeiro ponto a deixar claro ao planear essa
luta é que a classe dominante super-rica dos Estados Unidos e os regimes
reaccionários racistas que comandam os estados opressores, tanto os EUA como
Israel, são os criminosos responsáveis pelas consequências terríveis da guerra. O movimento pacifista deve expor esses crimes e procurar
desmantelar a máquina de guerra desses criminosos.
Apoio popular mínimo à guerra nos EUA
Comparada com as últimas seis longas guerras de
agressão dos EUA – Coreia, Vietname, Iraque (1991), Jugoslávia, Afeganistão e
Iraque (2003) – esta potencial “guerra sem fim” contra o Irão é a que enfrenta
maior oposição interna. A guerra contra o Irão começou com bombas e foguetes
americanos que mataram mais de 150 estudantes na cidade de Minab, e com o
assassinato, por Israel, do líder político e religioso supremo do Irão, o
aiatolá Ali Hosseini Khamenei, em 28 de fevereiro.
Antes de desencadear a conflagração, o regime
MAGA não fez nenhum esforço para obter apoio para a agressão, nem entre o povo,
nem no Congresso, nem buscando aliados internacionais além dos criminosos
genocidas que administram o estado colonialista israelita. O regime contava com
as grandes mentiras de décadas que demonizavam o Irão.
Desde o massacre inicial em Minab, que lembra o
incêndio da aldeia de My Lai no Vietname em 1968, cada bajulador do governo
MAGA e o impopular presidente dos EUA têm dado explicações contraditórias sobre
como a guerra começou, quanto tempo durará, se haverá envio de tropas
terrestres e qual o objectivo. As suas mentiras contraditórias só fizeram
diminuir a sua credibilidade.
Mesmo antes de serem relatadas extensas baixas
entre as tropas usamericanas, mesmo antes de o custo militar diário de mil
milhões de dólares desta “guerra de opção” EUA-Israel se tornar evidente (csis.org), mesmo antes de a guerra
desencadear um desastre económico mundial, a maioria da população dos EUA
opõe-se à “guerra sem fim” que o governo desencadeou.
Uma população que rejeita a guerra pode ser
mobilizada para lutar contra ela, assim como o povo de Minneapolis rejeitou os
maus-tratos brutais e os assassinatos de migrantes, e os aliados dos migrantes
rejeitaram a presença dos agentes do ICE.
Se os civis se opõem à guerra, isso significa
que as tropas podem recusar-se a obedecer a ordens ilegais. Reservistas e
soldados no activo são trabalhadores fardados. Eles reflectem as atitudes dos
seus pares civis – mas com as vidas e integridade física em risco.
Os soldados dos EUA oporão resistência à
guerra?
Durante a invasão usamericana do Vietname,
a resistência das tropas em travar combate contribuiu para a decisão de 1969 de
retirar gradualmente o contingente usamericano do Vietname e de passar a
depender de bombardeamentos. Também levou ao fim do recrutamento militar
obrigatório no início de 1973 e à decisão do Pentágono de criar, nas décadas
seguintes, um exército altamente tecnológico e sem recrutamento obrigatório.
Mesmo dentro dos militares não recrutados
[voluntários], alguns recusaram-se a lutar no Iraque e no Afeganistão, embora
em menor número do que no período do Vietname. Após muitos custos, mortes e
destruição, as tropas usamericanas foram forçadas a retirar-se das “guerras
intermináveis”.
Um livro de 2017 sobre a resistência dos
soldados (Turn the Guns Around: Mutinies, Soldier Revolts and Revolutions [Virando as Armas: Motins, Revoltas de Soldados e Revoluções) discute como os EUA não conseguem mobilizar um
exército de terra grande o suficiente para conquistar o Sul Global sem gerar
oposição interna e resistência entre as tropas. O livro dá exemplos de guerras
de agressão dos EUA que podem levar à rebelião dos soldados: uma que os EUA
iniciem contra “a Rússia, a China ou mesmo o Irã ou a [República Popular
Democrática da Coreia]”, ou se “o presidente ordenar que as tropas federais
reprimam greves de trabalhadores ou rebeliões em comunidades de minorias
étnicas dentro dos EUA”.
E esse é exactamente o cenário actual, de
Teerão a Minneapolis.
Se o regime MAGA ordenar a entrada de tropas
terrestres usamericanas no Irão, não há dúvidas de que os 93 milhões de
iranianos defenderão a sua civilização de 5.000 anos, uma resistência histórica
que os governantes dos EUA subestimam. Na intervenção militar em cidades
usamericanas, os cidadãos de Los Angeles, Chicago, Minneapolis e outras
cidades mostraram como a solidariedade da classe trabalhadora pode surpreender
os senhores da guerra de Washington.
É difícil imaginar a fúria popular caso o
regime MAGA tentasse reinstaurar o serviço militar obrigatório, o odiado
recrutamento. Jovens na Alemanha estão actualmente a protestar contra planos
semelhantes do imperialismo alemão.
Greve escolar na Alemanha contra o serviço
militar obrigatório, 5 de março de 2026. “A juventude reage” e “Os ricos querem
a guerra, a juventude quer um futuro” em cartazes feitos à mão.
Já existem indícios de que o Pentágono registrou baixas muito além dos sete soldados usamericanos oficialmente reconhecidos como mortos em combate. O facto de o principal hospital militar dos EUA em Landstuhl, na Alemanha, já ter cancelado os serviços de assistência ao parto (Military Times, 5 de março) demonstra que o Pentágono prevê um número muito maior de baixas usamericanas.
Organizações
de veteranos pacifistas, como a Veteranos pela Paz e outras, entraram em contacto
com militares no activo, oferecendo apoio a objectores de consciência. Um líder
do Centro sobre Consciência e Guerra afirmou que os seus telefones não param de
tocar desde o início da guerra EUA-Israel contra o Irão.
Um anúncio
feito há alguns meses por seis congressistas democratas, afirmando que as
tropas têm o dever de desobedecer a ordens ilegais, já se espalhou entre os
soldados. Quaisquer que sejam os motivos desses representantes eleitos, todos
veteranos das forças armadas ou da CIA, ninguém pode reverter essa situação.
Os
belicistas do MAGA podem descobrir que a sua agressão contra o Irão apenas
acelerou o declínio do imperialismo usamericano.
Johanna Sydow e Nsama Chikwanka, Project Syndicate, 5/12/2025
Traduzido
por Tlaxcala
Johanna Sydow é diretora da Divisão de Política Ambiental Internacional da Fundação Heinrich Böll (Alemanha).
Nsama Chikwanka é diretor nacional da Publish What You Pay Zambia.
À medida que os governos enfraquecem as proteções ambientais para promover novos projetos mineiros, a corrida global pelos minerais críticos aprofunda as divisões sociais e prejudica ecossistemas vitais. Apenas a redução do consumo e a criação de regras robustas e aplicáveis podem evitar danos duradouros e proteger os direitos humanos fundamentais.
BERLIM –
O custo ambiental e humano da extração mineral torna-se a cada dia mais claro –
e mais alarmante. Cerca de 60% das vias fluviais do Gana estão hoje fortemente
poluídas devido à mineração de ouro ao longo das margens dos rios. No Peru,
muitas comunidades perderam o acesso à água potável depois de as proteções
ambientais terem sido enfraquecidas e os controlos regulatórios suspensos para
facilitar novos projetos mineiros, contaminando inclusive o rio Rímac, que
abastece a capital, Lima.
Essas
crises ambientais são agravadas pelo aprofundamento da desigualdade e das
divisões sociais em muitos países dependentes da mineração. O Atlas Global de
Justiça Ambiental documentou mais de 900 conflitos relacionados com a mineração
em todo o mundo, dos quais cerca de 85% envolvem o uso ou a poluição de rios,
lagos e águas subterrâneas. Neste contexto, as grandes economias estão a
remodelar rapidamente a geopolítica dos recursos. Os Estados Unidos, enquanto
tentam estabilizar a economia mundial baseada em combustíveis fósseis, também
correm para garantir os minerais necessários para veículos elétricos, energias
renováveis, sistemas de armas, infraestrutura digital e construção – muitas
vezes por meio de coerção ou táticas agressivas de negociação. Na sua tentativa
de reduzir a dependência da China, que domina o processamento de elementos de
terras raras, considerações ambientais e humanitárias estão a ser cada vez mais
deixadas de lado. A Arábia Saudita também procura posicionar-se como uma
potência emergente no setor mineral no âmbito dos seus esforços para
diversificar a economia para além do petróleo, estabelecendo novas parcerias –
inclusive com os EUA – e acolhendo uma conferência mineira de grande
visibilidade. Simultaneamente, o Reino tem minado ativamente progressos noutros
fóruns multilaterais, incluindo a Conferência das Nações Unidas sobre
Alterações Climáticas no Brasil (COP30) e as pré-negociações em curso da
Assembleia das Nações Unidas para o Meio Ambiente (UNEA7).
Na
Europa, grupos industriais fazem lobby a favor de mais desregulamentação,
enquanto empresas de combustíveis fósseis como ExxonMobil, TotalEnergies e
Siemens recorrem a táticas enganosas para enfraquecer os novos mecanismos
concebidos para proteger os direitos das comunidades em regiões produtoras de
recursos. Devemos preocupar-nos com o facto de as empresas e países que
contribuíram para o aquecimento global, a degradação ambiental e as violações
dos direitos humanos procurarem agora dominar o setor mineral. Permitir que
isso aconteça colocaria toda a humanidade em risco, não apenas as populações
vulneráveis.
Os
governos não podem permanecer passivos. Devem recuperar a responsabilidade de
orientar o principal motor da expansão mineira: a procura. Reduzir o consumo de
materiais, especialmente nos países desenvolvidos, continua a ser a forma mais
eficaz de proteger ecossistemas vitais e evitar os danos a longo prazo que a
extração inevitavelmente causa.
Ainda
assim, apesar das amplas evidências de que o aumento da extração de recursos
ameaça o abastecimento de água e a segurança pública, governos de todo o mundo
estão a enfraquecer as proteções ambientais na tentativa de atrair investimento
estrangeiro, colocando assim em perigo os próprios ecossistemas que sustentam
toda a vida na Terra. Do ponto de vista económico, esta estratégia é
profundamente míope.
De facto,
pesquisas recentes mostram que práticas responsáveis não são apenas moralmente
corretas, mas também economicamente sólidas. Um novo relatório do Programa das
Nações Unidas para o Desenvolvimento, baseado em cinco anos de dados de 235
multinacionais, demonstra que empresas que reforçam o seu historial em direitos
humanos tendem a apresentar melhor desempenho a longo prazo. Os governos devem,
portanto, desconfiar da alegação da indústria de que a rentabilidade exige o
retrocesso de regulamentações ambientais ou a negligência dos direitos humanos.
Quando as pessoas não conseguem confiar que os líderes políticos protegerão os
seus direitos, é muito provável que resistam, e o conflito social resultante
faz com que o investimento diminua. A reação contra o projeto de mineração de
lítio Jadar, da Rio Tinto, na Sérvia, é um exemplo emblemático. Muitos sérvios
acreditavam que o governo estava a colocar os interesses empresariais em
primeiro lugar ao avançar com um projeto que não cumpria sequer os padrões básicos
de sustentabilidade. A indignação pública travou o desenvolvimento e deixou a
empresa a braços com perdas significativas.
Apenas
quadros jurídicos robustos, apoiados por uma aplicação eficaz, podem criar as
condições para um desenvolvimento estável e que respeite os direitos. Isso
significa salvaguardar os direitos dos povos indígenas; garantir o
consentimento livre, prévio e informado de todas as comunidades afetadas;
proteger os recursos hídricos; realizar um ordenamento do território que
estabeleça zonas proibidas; e conduzir avaliações de impacto social e ambiental
que sejam independentes, participativas e transparentes.
Dadas as
tensões geopolíticas crescentes, fóruns multilaterais como a COP e a UNEA
continuam essenciais para contrariar a fragmentação global e promover soluções
partilhadas. Países ricos em minerais devem trabalhar em conjunto para elevar
os seus padrões ambientais, tal como países produtores de petróleo influenciam
coletivamente os preços globais. Por meio da ação coletiva, podem impedir uma
corrida destrutiva rumo ao abismo e garantir que as comunidades locais –
especialmente povos indígenas e outros titulares de direitos – sejam ouvidas.
Num
momento em que a água potável se torna mais escassa, os glaciares derretem e a
agricultura enfrenta ameaças crescentes, a ação internacional coordenada já não
é opcional. A resolução apresentada pela Colômbia e Omã para a UNEA de
dezembro, apelando a um tratado vinculativo sobre minerais, representa um passo
importante rumo a padrões globais mais justos. Iniciada pela Colômbia e
copatrocinada por países como a Zâmbia, que conhecem demasiado bem os custos
das indústrias extrativas, a proposta exige cooperação ao longo de toda a
cadeia de produção mineral para reduzir os danos ambientais e proteger os
direitos dos povos indígenas e de outras comunidades afetadas. Ao atribuir
responsabilidade aos países consumidores de recursos, pretende garantir que o
fardo da reforma não recaia exclusivamente sobre as economias produtoras.
Importa notar que também aborda os perigos representados pelas barragens de
rejeitos e outros resíduos mineiros, que já provocaram falhas devastadoras e
centenas de mortes.
Conjuntamente,
estas medidas oferecem uma rara oportunidade para começar a corrigir as
desigualdades que há muito caracterizam a extração mineral. Todos os países –
especialmente os produtores de minerais que historicamente foram excluídos das
negociações – devem aproveitar este momento. A UNEA7 abre uma janela para a
concretização da justiça no domínio dos recursos.
Version française Versión española English version
A estação de metrô Argentine, em Paris, chamava-se até 1948 Obligado, em comemoração à vitória argentina de 20 de novembro de 1845, quando a Confederação Argentina infligiu uma derrota decisiva às forças anglo-francesas na Vuelta de Obligado, no rio Paraná. Tornado feriado com o nome de Dia da Soberania Nacional em 1974, o dia 20 de novembro foi transferido este ano para o dia 24 de novembro, para permitir um fim de semana prolongado do dia 21 ao dia 24, um presente do governo Milei para a indústria hoteleira e turística. Nesta ocasião, publicamos um pequeno livro que explica o quanto a “soberania nacional” argentina está em mau estado. Apresentação abaixo.

Nesta coletânea, encontram-se três artigos publicados em outubro e novembro de 2025 sobre a involução e os desafios da crise catastrófica que atravessa a Argentina, país que foi o “celeiro do mundo” no século passado e que hoje se tornou o lixo transgênico do mundo. Cerca de 18 milhões de hectares (com variações anuais) – metade da superfície dedicada às “grandes culturas” – são dedicados ao cultivo de soja transgênica, um cereal verdadeiramente diabólico que agora “alimenta” não só as vacas e os porcos de metade do planeta, a começar pela China e Israel, mas também as crianças das escolas do Rio da Prata à Terra do Fogo.
Os argentinos, os maiores consumidores de carne do mundo depois dos norte-americanos, já não podem pagar a carne de que tanto gostam para os seus asados, a versão rioplatense do churrasco ou do michuim. Sete em cada dez crianças argentinas não têm o que comer. Javier Milei, o homem da motosserra, não é o único responsável por essa catástrofe, ele é apenas o executor das tarefas sujas, a serviço dos ianques e seus comparsas do Banco Mundial e do FMI. Os chineses desempenham um papel nada insignificante no jogo de blefe que se joga às custas dos pobres e dos empobrecidos. Eles levaram à letra o lema do camarada Deng Xiaoping: “Não importa se o gato é preto ou branco, o essencial é que ele caça o rato”. Todos nós somos potenciais ratos argentinos. Leia e você entenderá.
Argentina: laboratório da pobreza sob tutela americana
A guerra da soja: anatomia de uma semente
Como a soja, entre a China, os Estados Unidos e o Brasil, se tornou o motor oculto do comércio mundial
A semente, a besta e a dívida
A Argentina, sua soja, sua carne e sua dívida na nova ordem alimentar mundial